Fuga de Médicos Dentistas Preocupa Ordem e Pressiona Governo a Agir

3 de Dezembro 2025

Um estudo da Ordem dos Médicos Dentistas revela que 7% dos profissionais já trabalham no estrangeiro. A instabilidade económica e a interferência dos seguros são apontadas como causas principais de uma fuga que a estrutura classifica de crise

A Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) pintou, esta quarta-feira, um retrato preocupante do setor. Os números, extraídos do “Diagnóstico à Profissão 2025”, falam por si e mostram uma diáspora que já não pouca gente considera reversível. Sete por cento dos clínicos exercem atualmente fora de Portugal, um caminho que parece sem regresso para a maioria. Apenas 18% dos que saíram admitem a possibilidade de voltar. A ferida é particularmente profunda entre os mais novos: 41,7% dos profissionais com menos de 30 anos planeiam a sua partida antes mesmo de colar grau, um dado que fala de desencanto e de uma perceção aguda de que o mercado português lhes pouco oferece.

As razões para esta hemorragia são sobejamente conhecidas no sector, mas o estudo, que resulta da análise a 2658 inquéritos, veio quantificá-las. Mais de metade (55%) aponta para rendimentos insatisfatórios, quase metade (48,3%) sente uma desvalorização social da profissão, e 43,9% procura simplesmente uma melhor qualidade de vida. Por trás destas percentagens está uma realidade laboral marcada pela precariedade. É chocante, mas não surpreendente para quem está dentro do assunto, saber que 60,4% dos médicos dentistas têm um salário variável, dependente dos tratamentos realizados, frequentemente sem um contrato estável que lhes garanta o amanhã.

A isto soma-se uma pressão que os clínicos dizem ser asfixiante: a interferência das seguradoras e dos planos de saúde na sua prática clínica. Um esmagador número de 82,4% dos inquiridos queixa-se deste factor, que mina a sua autonomia e distorce, na sua opinião, a relação com o doente. “Se não criarmos condições para garantir rendimentos justos, estabilidade contratual e regulação dos seguros, continuaremos a assistir à saída de profissionais qualificados”, alertou o bastonário Miguel Pavão, num tom que mistura aviso com frustração. Para ele, não se trata de um problema sectorial, mas de um “risco sistémico” que ameaça a economia e o acesso equitativo aos cuidados de saúde oral no país.

Perante este cenário, a OMD não se limitou ao diagnóstico. Apresentou um conjunto de propostas concretas, dirigidas sobretudo ao próximo Orçamento do Estado. A pedra angular passa pela criação da Carreira Especial de Médico Dentista no SNS, seguindo um modelo já testado na Madeira, para travar a rotatividade e oferecer perspectivas de progressão. A ordem defende ainda que 30% da receita do imposto sobre bebidas açucaradas seja canalizada para a saúde oral, financiando programas de prevenção e alargando o cheque-dentista. Há, no entanto, uma medida que soa a senso comum urgente: a reabertura dos mais de 80 gabinetes de medicina dentária nos centros de saúde, que estão paradoxalmente encerrados num período de suposta aposta na prevenção.

O programa Cheque-Dentista, ele próprio, precisa de uma reformulação, argumenta a OMD. A ordem propõe a criação de cheques específicos para situações complexas, como a reabilitação prostética e o tratamento de traumatismos, áreas onde a resposta pública é hoje quase inexistente. São, no fundo, sugestões que miram travar a sangria. Resta saber se o poder político as escutará, ou se continuará a ver partir, um a um, profissionais cuja formação custou caro ao país.

NR/HN/Lusa

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