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A Sociedade Britânica de Parasitologia atribuiu a BSP President’s Medal a Sara Silva Pereira, investigadora do Católica Biomedical Research Centre (CBR) e docente da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa (FM‑UCP). O galardão, criado em 2019 para distinguir investigadores em início de carreira com trabalho de impacto internacional, chega pela segunda vez a uma cientista baseada fora do Reino Unido — sinal de um campo em que as fronteiras contam menos do que a persistência.
“É uma honra receber esta distinção, que reforça a relevância do trabalho que desenvolvemos no CBR e motiva a minha equipa para continuar a explorar os mecanismos de sobrevivência dos tripanossomas,” afirmou a investigadora. Na mesma linha, sublinhou a utilidade prática do esforço: “Compreender estes processos é fundamental para desenvolver estratégias mais eficazes para controlar doenças infeciosas negligenciadas que continuam a afetar milhões de animais e pessoas.”
Desde 2023, Sara Silva Pereira lidera no CBR o Laboratório de Interações Parasita‑Vasculatura, centrado nos tripanossomas africanos — agentes da tripanossomíase humana africana, mais conhecida por doença do sono — e no modo como se relacionam com os hospedeiros mamíferos. O foco recai nas células endoteliais, que forram os vasos sanguíneos e participam no diálogo molecular que pode favorecer a permanência do parasita no organismo. É um diálogo tenso: após a picada de uma mosca tsé‑tsé infetada, não é raro surgir uma lesão cutânea dolorosa; seguem‑se febre, perda de peso, letargia, perturbações do sono, confusão, descoordenação. Sem tratamento, o desfecho tende a ser fatal, também porque a barreira hematoencefálica é envolvida no processo, com inflamação e dano no sistema nervoso central.
No terreno pecuário, os números são áridos e persistem: perdas anuais estimadas em 1,5 mil milhões de dólares e mortalidade que ronda 3 milhões de cabeças de gado. É aí que a investigação ganha outra espessura — não apenas biomédica, mas económica. O grupo de Sara Silva Pereira combina modelos computacionais e biologia da infeção com sistemas de bioengenharia de tecidos, procurando recriar microambientes fisiológicos que aproximem o laboratório das condições reais. O objetivo declarado é perceber como os tripanossomas se mantêm no hospedeiro e, por essa via, abrir caminho a terapias novas.
A medalha britânica tem um historial breve, embora já com nomes que circulam entre laboratórios e congressos: Mattie Pawlovic, Emma Briggs, Joana Correia Faria, Habil Grzybek e Juan Quintana. A entrada de Sara Silva Pereira nesta lista acrescenta peso à produção científica desenvolvida no CBR e projeta a FM‑UCP num debate global sobre doenças negligenciadas, tantas vezes periféricas nas agendas mas centrais onde a vulnerabilidade se instala.
Crédito da imagem: Gonçalo Villaverde
PR/HN



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