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Ler o relatório da OCDE é, por vezes, um exercício de focagem seletiva. A organização destaca a trajetória gloriosa da esperança de vida, mas passa ao lado de um indicador mais cruel e revelador: a mortalidade prematura, isto é, as mortes antes dos 70 anos. É aí que a fotografia de Portugal perde o retoque. Continuamos a ter uma proporção de pessoas a morrer demasiado cedo por causas evitáveis – doenças cardiovasculares, alguns cancros, acidentes – que nos envergonha perante a Europa Ocidental. Enquanto um país como a Eslovénia, outrora comparável a Portugal, fez progressos notáveis nesta área, nós temos estagnado. Esta é a face oculta do nosso envelhecimento populacional: uma pirâmide que se alonga no topo, mas que ainda é roída na base por mortes que não deveriam acontecer.
O que significa isto no concreto? Significa pais a morrer antes de conhecer os netos, filhos a perder os pais na meia-idade, anos potenciais de trabalho e contribuição perdidos para o sistema. Cada uma destas mortes é uma tragédia pessoal e um fracasso coletivo. Comparar com a Lituânia ou a Letónia, países com alguns dos piores indicadores de mortalidade prematura da UE, não é consolo. Pelo contrário, é um alerta. Esses países enfrentam problemas gravíssimos de alcoolismo e de sistemas de saúde fragmentados. E nós? As nossas causas são mais difusas, o que talvez as torne mais difíceis de combater: estilos de vida sedentários, alimentação pobre em nutrientes mas rica em sal e açúcar, e um acesso desigual aos rastreios e aos cuidados de saúde primários.
Há uma ironia perversa. Gastamos rios de dinheiro em tratamentos de alta tecnologia para doenças em estádios avançados, mas somos parcos no investimento na prevenção primordial – aquela que evita que a doença apareça. Enquanto a Noruega ou a Suécia têm campanhas agressivas de saúde pública e ambientes urbanos construídos para promover a atividade física, em Portugal a cultura do check-up regular e da vigilância ativa da saúde não está enraizada. Vai-se ao médico quando se está doente, não para evitar ficar doente. Esta mentalidade reativa, combinada com as já famosas listas de espera, cria uma tempestade perfeita para o diagnóstico tardio.
O relatório da OCDE, ao discutir a sustentabilidade, fala em prolongar a vida ativa. Mas como é que se prolonga uma vida que é, para muitos, tragicamente interrompida? As políticas de pensões e as políticas de saúde pública andam de mãos dadas, mas raramente se sentam à mesma mesa. É preciso uma visão integrada. Reduzir a mortalidade prematura não é apenas um imperativo moral; é também uma necessidade económica. Significa mais anos de contribuições para a segurança social, menos pensões de invalidez pagas a viúvas jovens, menos custos com tratamentos de última linha.
Ignorar este indicador é como avaliar a saúde de uma floresta apenas pela altura das árvores mais velhas, sem reparar no número de rebentos que morrem antes de crescer. Portugal tem árvores antigas e veneráveis, sim. Mas a renovação do bosque está em risco. E sem uma floresta jovem e saudável, todo o ecossistema – económico e social – fica comprometido a longo prazo. O desafio não é só fazer os portugueses viverem até aos 90. É fazer com que cheguem aos 70 com saúde e vitalidade. E nesse ponto, o relatório da OCDE, e a nossa própria discussão pública, estão incompletos. A verdadeira sustentabilidade começa muito antes da idade da reforma.
NR/HN/OCDE



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