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É curioso como um documento de centenas de páginas sobre o futuro do trabalho e das pensões, como o “Pensions at a Glance 2025” da OCDE, consegue não falar de saúde mental. Fala de horas trabalhadas, de salários, de anos de contribuições. Mas omite o estado psicológico das pessoas que sustentam todo este edifício. Em Portugal, este silêncio estatístico é particularmente gritante. Enquanto países como o Reino Unido ou os países nórdicos integram cada vez mais a saúde mental nas suas políticas de emprego e previdência, por cá o tema continua a ser um tabu, um problema privado com consequências públicas gravíssimas.
A ligação é óbvia para qualquer médico de família. Uma pessoa com depressão severa não tem a mesma produtividade, falta mais ao trabalho, pode ver a sua carreira estagnar ou mesmo ser forçada a uma reforma antecipada por invalidez. Isso significa menos contribuições ao longo da vida e, consequentemente, uma pensão mais baixa. É um ciclo perverso: a doença mental empobrece o presente e hipoteca o futuro. Comparar com a Dinamarca é ilustrativo. Lá, programas de intervenção precoce no local de trabalho e um acesso facilitado a acompanhamento psicológico tentam quebrar este ciclo. Em Portugal, a linha que separa o “estar em baixo” de um episódio depressivo que requer tratamento é ténue e, muitas vezes, só é ultrapassada quando a situação já é grave. O estigma ainda pesa muito.
Os números nacionais, dispersos por estudos, pintam um quadro preocupante. As perturbações de ansiedade e depressivas são extremamente prevalentes. A pressão económica, a precariedade laboral, o presenteísmo (ir trabalhar doente) num mercado de trabalho tenso são combustível para este fogo. Se na Coreia do Sul, por exemplo, o debate sobre o burnout e as horas de trabalho excessivas é intenso, em Portugal há uma certa resignação. Aceita-se que o trabalho dói, que é desgastante. Esta normalização do sofrimento psicológico tem um custo oculto que não está contabilizado nas projeções da OCDE. Quantas saídas precoces do mercado de trabalho, quantas pensões de invalidez, quantos anos de contribuição perdidos se devem a uma depressão não tratada?
O pior é que o envelhecimento da população pode agravar este cenário. O isolamento social dos idosos, a solidão, são fatores de risco poderosos para problemas de saúde mental. Um sistema focado apenas na doença física e nas pensões por velhice está cego para uma parte significativa do problema. Países como os Países Baixos têm experimentado modelos em que terapeutas e assistentes sociais trabalham em conjunto com as equipas de geriatria. Em Portugal, a psiquiatria da terceira idade é um parente pobre da especialidade e os cuidados na comunidade são incipientes.
Ignorar esta dimensão é um erro de cálculo estratégico. As políticas que visam prolongar a vida ativa, tão em voga, falharão redondamente se não considerarem a resistência psicológica dos trabalhadores. Não se pode pedir a alguém que trabalhe até aos 70 anos se, aos 55, já está emocionalmente exausto e sem perspetivas. O relatório da OCDE, ao não mencionar este ponto, revela uma lacuna na sua análise. A sustentabilidade dos sistemas previdenciários depende não só de corpos saudáveis, mas também de mentes sãs. E, nesse campo, Portugal navega às cegas, sem os dados robustos nem as políticas concertadas de outros países europeus. É uma omissão que pode sair cara, em sofrimento humano e em euros mal calculados.
NR/HN/OCDE



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