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A teia de controlo que o Hamas tecia sobre o tecido humanitário em Gaza está exposta em dezenas de documentos internos do movimento, agora desclassificados pelas Forças de Defesa de Israel e analisados em exclusivo pelo portal Euractiv. Os papéis, que abrangem o período entre 2018 e 2022, traçam um sistema meticuloso de vigilância e infiltração junto de organizações não-governamentais internacionais que operavam no enclave, incluindo várias que dependiam de financiamento direto da União Europeia.
Os ficheiros, que as autoridades israelitas encontraram em Gaza após o início da guerra de outubro de 2023, foram estudados pelos investigadores do instituto NGO Monitor, sediado em Jerusalém. Eles desvendam os mecanismos obscuros do Interior Security Mechanism (ISM), uma unidade especial do ministério do Interior do Hamas, que atuava como uma sombra a aprovar e fiscalizar cada projeto das ONG no território. Uma das práticas mais reveladoras era a exigência da nomeação de “garantes”, figuras locais que serviam de ponte obrigatória entre as organizações e o grupo.
Esses intermediários, segundo os documentos, não eram meros funcionários administrativos. Muitos ocupavam cargos de direção ou presidiam conselhos de administração dentro das próprias ONG. Um relatório de dezembro de 2022 é particularmente explícito: lista dados pessoais de vários “garantes” e sugere que estes podiam ser “explorados para fins de segurança”, nomeadamente para infiltrar pessoal estrangeiro sénior. A descrição de um desses indivíduos, ligado à organização humanitária italiana Cesvi – financiada por Bruxelas –, não deixa margem para dúvidas: era um “afiliado ao Hamas”.
A profundidade do conhecimento que o grupo tinha sobre a vida interna destas entidades surpreende. Os registos incluíam desde o comportamento religioso e as convicções políticas dos “garantes” até ao seu vestuário e hábitos na internet. Num caso concreto, o Hamas forçou o encerramento temporário dos escritórios da International Medical Corps (IMC) em Gaza, em 2020, depois de a ONG se ter recusado a entregar relatórios financeiros e administrativos. Só a cedência da organização, também ela beneficiária de fundos europeus, permitiu a reabertura. Noutra nota, descobrimos que o próprio diretor administrativo local da IMC era identificado como um membro do grupo, com patente de capitão.
Mas o envolvimento ia além da mera monitorização. Os documentos indiciam uma apropriação calculada dos projetos humanitários para fins que em nada se relacionavam com o alívio do sofrimento da população. Num memorando de junho de 2021, o Hamas regista com interesse um projeto de irrigação para pomares, implementado pela Oxfam com um grupo local. O detalhe crucial está na localização: uma “área fronteiriça, sensível para a segurança”. O texto, com uma frieza burocrática, assinala que tais árvores de fruto “são conhecidas por servirem de cobertura para atividades de resistência”. Na prática, segundo a análise do NGO Monitor, o projeto financiado pela UE serviu para manter e ocultar posições taticamente vantajosas para as forças do Hamas.
Contactadas pela Euractiv, as organizações Cesvi, Oxfam e International Medical Corps não responderam aos pedidos de comentário sobre estas revelações. Já Olga Deutsch, vice-presidente do NGO Monitor, não poupa nas palavras: “Os documentos internos provam pela primeira vez a infiltração e o controlo exercidos pelo Hamas sobre o ecossistema humanitário de Gaza”. Para Deutsch, os memorandos “pormenorizam a rede formal de monitorização, controlo e influência” que, no entanto, nunca foi mencionada pelas próprias ONG na sua atividade pública.
A descoberta coloca questões incómodas sobre os circuitos de ajuda internacional a um território sob o controlo de um grupo considerado terrorista pela UE. Mesmo antes da guerra atual, Gaza dependia criticamente deste fluxo financeiro externo. Os documentos agora conhecidos sugerem que, pelo menos em alguns casos, essa dependência foi habilmente manipulada por quem governava o enclave, desviando instrumentos de paz para outras lógicas.
NR/HN/Lusa



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