Gaza: MSF denuncia 900 mortos à espera de evacuação médica desde cessar-fogo

4 de Dezembro 2025

A organização Médicos Sem Fronteiras revelou que cerca de 900 pessoas morreram em Gaza à espera de transferência para tratamento, desde outubro. A responsável médica no terreno descreve um sistema de saúde esfacelado e critica a ineficácia prática do cessar-fogo

A enfermeira pediátrica Ruth Conde, responsável médica dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Gaza, descreveu esta quarta-feira um cenário de sofrimento acumulado que a recente trégua não conseguiu desfazer. Cerca de 900 pessoas morreram no território enquanto aguardavam, em vão, uma evacuação médica para receber cuidados urgentes. A declaração foi feita em Madrid, durante uma conferência de imprensa convocada pela organização humanitária.

Segundo os dados apresentados, o cessar-fogo que entrou em vigor em outubro deveria ter aberto um corredor mais amplo para a saída de doentes críticos. A realidade, porém, ficou muito aquém. Apenas 200 pessoas conseguiram deixar Gaza para tratamento. “Mais de 16.500 pessoas, entre as quais mais de 4.000 crianças, aguardam evacuação médica”, afirmou Conde, que acabou de regressar do enclave. “Novecentas morreram à espera dessa chamada que nunca chegou”, acrescentou, classificando estas como mortes evitáveis.

O tecido hospitalar local, já em frangalhos antes do último conflito, está hoje irreconhecível. “Em Gaza, não há qualquer hospital plenamente operacional”, alertou a profissional de saúde. Todos as unidades foram alvo de ataques, algumas repetidas vezes. As que mantêm portas abertas funcionam com recursos mínimos e equipas exaustas, um esforço hercúleo que não esconde o colapso.

A pausa nos combates, que foi violada em várias ocasiões com um saldo de mais de 300 mortos no último mês e meio, mostrou-se insuficiente na ótica das organizações no terreno. “Não basta que não caiam bombas”, esclareceu Ruth Conde. “Um cessar-fogo significa também que a população tenha acesso a cuidados médicos, a habitação segura, a alimentos”. A sua narrativa pinta um retrato de um território encolhido: “A Gaza de hoje não mede o que media antes; os novos limites, as áreas inacessíveis, as zonas declaradas vermelhas reduziram drasticamente o território onde a população pode viver”.

Este estrangulamento logístico afeta tudo, até o mais básico. Equipas médicas passam “dias inteiros, meses, à espera de medicamentos que não chegam”, porque itens como pequenos geradores ou simples cadeiras de rodas são sistematicamente bloqueados pelas autoridades israelitas sob suspeita de duplo uso. Essa asfixia material força os profissionais a dilemas angustiantes. “Resulta em decisões impossíveis, como escolher a que bebé vamos colocar um ventilador mecânico”, confessou Conde.

Na mesma conferência, Jesús A. Núñez, co-director do Instituto de Estudos sobre Conflitos e Ação Humanitária (IECAH), trouxe uma análise política cortante. Criticou o acordo promovido pelos Estados Unidos, argumentando que ele “desmobilizou a população” e permitiu que a guerra terminasse sem resolver o conflito de raiz. “É algo planeado, desenhado e calculado para alcançar esse objetivo; não para resolver o problema de Gaza, mas para garantir a desmobilização que permita ao primeiro-ministro, Benjamim Netanyahu, continuar livremente com o que já estava a fazer”, afirmou Núñez.

O apelo final dos MSF é direto: acelerar imediatamente as evacuações médicas. Cada dia de burocracia ou entrave, sugerem, condena ao sofrimento e à morte pessoas que dependem de um cuidado que o território sitiado já não pode proporcionar.

NR/HN/Lusa

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