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A ambiciosa proposta para travar a transmissão da malária através da libertação de mosquitos geneticamente modificados na Ilha do Príncipe esbarrou na relutância das autoridades de São Tomé e Príncipe. O Governo não deu luz verde a esse capítulo do projecto desenvolvido pela Universidade da Califórnia Iniciativa Contra a Malária (UCMI), levantando questões sobre biossegurança e pedindo mais garantias.
Em declarações à Lusa, o investigador João Pinto, responsável pelo programa no terreno, confirmou que “uma primeira abordagem para se implementar a nossa estratégia, nomeadamente na Ilha do Príncipe, não teve uma resposta favorável”. A ideia, que soa a ficção científica, consiste em alterar o código genético do mosquito Anopheles — o vector da doença — para que o próprio insecto deixe de hospedar e transmitir o parasita Plasmodium. O gene modificado, dominante, propagar-se-ia pela população de mosquitos, interrompendo o ciclo de infecção.
A proposta formal foi entregue ao anterior executivo, liderado por Patrice Trovoada, em março do ano passado. Mas, cinco meses depois, chegou a resposta negativa, acompanhada da suspensão dos estudos focados neste método específico. O projecto mais amplo da UCMI, presente no arquipélago desde 2018, conseguiu depois, em outubro, autorização para continuar, desde que afastasse a componente de libertação dos insectos alterados.
João Pinto revelou que, já neste ano, o atual Governo ponderou revisitar a hipótese. No entanto, perante o silêncio que se seguiu, a equipa científica decidiu retirar a proposta de mesa por iniciativa própria. “Ficámos disponíveis para continuar a apoiar o Programa de Luta Contra o Paludismo noutras frentes”, explicou. O cerne da hesitação governamental, segundo o investigador, reside numa certa insatisfação com os dados apresentados, “nomeadamente ao nível da biossegurança e do risco”. O executivo terá considerado que a investigação produzida “não era suficiente para dar a confiança” necessária a um salto desta magnitude.
“Tomar o primeiro passo neste caso torna São Tomé e Príncipe pioneiro nesta tecnologia ao nível não só de África, mas do mundo inteiro”, argumentou Pinto, mostrando compreensão pelas dúvidas. “Não deixa de ser uma tecnologia completamente nova, logo há de haver sempre uma suspeita”, admitiu, caracterizando a cautela como um reflexo natural.
Do lado oficial, o ministro da Saúde, Celso Matos, ofereceu uma nuance diferente à cronologia dos factos. Quando contactado pela Lusa, Matos esclareceu que, no momento em que a UCMI comunicou a retirada da segunda proposta, o assunto ainda estava sob análise interna. O Governo, afirmou, não tinha ainda chegado a uma decisão final e muito menos recusado liminarmente a ideia.
Na verdade, segundo o governante, o executivo estava precisamente a procurar pareceres externos adicionais, contactando a Organização Mundial da Saúde e outros parceiros para encontrar “um especialista em biossegurança que avaliasse as condições do laboratório” usado pela equipa norte-americana. A posição de São Tomé e Príncipe, insiste Celso Matos, é a de um país que precisa de “colher maior informação qualificada, ver os prós e os contras”, antes de se comprometer com uma solução tão definitiva e tecnologicamente complexa. O ritmo da decisão, sugeriu, deve estar alinhado com o momento atual da luta contra o paludismo no país.
A troca de impressões deixou no ar uma sensação de oportunidade adiada. Enquanto os cientistas afirmam ter concluído a sua parte do trabalho de casa, falta o aval político, “uma condição sem a qual nós nunca poderíamos implementar uma situação destas”, concluiu João Pinto. O impasse mantém o arquipélago numa encruzilhada familiar entre a urgência de erradicar uma doença endémica e a prudência face a soluções que, prometendo um futuro sem malária, carregam o peso da novidade e de interrogações ainda por calar totalmente.
NR/HN/Lusa



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