Justiça Intergeracional em Portugal Agrava-se com Crise na Habitação e Saúde

4 de Dezembro 2025

O índice de Justiça Intergeracional (IJI) em Portugal agravou-se no período pós-pandemia, principalmente devido à deterioração dos indicadores de habitação e saúde, revela o mais recente relatório do projeto “Um Índice de Justiça Intergeracional para Portugal”, desenvolvido pelo Institute of Public Policy com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. 

O IJI caiu de 0,50 em 2021 para 0,43 em 2023, numa escala de zero a um, onde valores mais próximos da unidade indicam maior justiça intergeracional.

Segundo Paulo Trigo Pereira, coordenador do estudo, apesar de até 2020 se registar uma melhoria na justiça entre gerações, o período de 2020 a 2023 apresenta um agravamento, sobretudo nas áreas da habitação e da saúde. O indicador da habitação sofreu uma queda significativa, passando de 0,46 em 2019 para 0,23 em 2023. Este declínio reflete fatores como o esforço necessário para aceder a uma casa, a sobrecarga das despesas, a autonomia e as condições habitacionais. O economista destaca que Portugal é um dos países com maior percentagem de jovens até aos 35 anos a viver em casa dos pais, tendência crescente que contribui para a queda do índice na habitação. Outro fator relevante é a acessibilidade, ou seja, a relação entre o preço das casas e os rendimentos das famílias.

Paulo Trigo Pereira considerou que existe um “certo fracasso nas políticas de habitação” implementadas pelos anteriores e pelo atual governo, afirmando que “não estão a compreender a gravidade, do ponto de vista intergeracional, do problema da habitação”. Para responder a este desafio, o coordenador defende a necessidade de uma coordenação entre várias áreas, que inclua o aumento da oferta habitacional, o fim dos vistos Gold, que estão a inflacionar o mercado especulativo, a restrição do Alojamento Local em zonas onde é predominante, e a dinamização do mercado de arrendamento de longa duração. No entanto, alertou que “não basta aumentar a oferta”, sendo necessário que as medidas sejam coerentes e apontem para o mesmo objetivo, o que, segundo ele, não está a acontecer.

Na área da saúde, o relatório revela uma degradação do acesso aos cuidados, com o índice a cair de 0,57 em 2021 para 0,35 em 2023. Dois fatores explicam esta queda: o acesso aos cuidados de saúde, que depende da despesa das famílias e das necessidades não satisfeitas, que se agravou no período, e a diminuição significativa da despesa do sistema de saúde em prevenção. O relatório regista ainda um aumento no consumo de ansiolíticos e antidepressivos, sinalizando um agravamento do bem-estar físico e psicológico das novas gerações. Paulo Trigo Pereira defende a implementação de políticas que promovam mais investimento na prevenção e uma avaliação dos efeitos das políticas a longo prazo, para garantir um melhor acesso aos cuidados de saúde.

O estudo, que conta com cerca de 70 páginas e apresenta várias recomendações, alerta também para o aumento dos passivos da Segurança Social desde 2016, o que reforça a perspetiva de uma quebra significativa no nível de vida das gerações que se reformarão entre 2060 e 2070.

lusa/HN

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