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O médico conhecido nos círculos íntimos como “Dr. P.” cruzou esta quarta-feira as portas do tribunal federal no centro de Los Angeles com passos que soavam a sentença já antecipada. Salvador Plasencia, o primeiro a responder perante a justiça no intricado processo que se seguiu à morte de Matthew Perry, ouviu o juiz ditar-lhe uma pena de 30 meses de prisão efetiva. Dois anos de liberdade condicional supervisionada e uma multa de 5.600 dólares completam a sanção, encerrando – pelo menos no plano judicial – o seu papel numa trama que alimentou o vício terminal do ator.
Plasencia, de facto, não procurou subterfúgios. Entregou-se imediatamente após a audiência para começar a cumprir a pena, conforme relatou o Los Angeles Times. Já em julho último, tinha assumido a culpa por quatro crimes de distribuição de cetamina, um anestésico dissociativo com uso recreativo crescente. Em setembro, renunciou voluntariamente à sua licença médica no estado da Califórnia, um gesto que a defesa depois usaria como argumento para pedir clemência.
Os factos, porém, pesavam demasiado. Num memorando submetido ao tribunal, os procuradores federais foram perentórios: as “graves quebras de confiança e o abandono do juramento de ‘não causar dano’” contribuíram, sem sombra para dúvidas, “para o sofrimento do Sr. Perry”. Por isso, exigiram uma pena mínima de três anos. Do outro lado, os advogados de defesa suplicaram por três anos de liberdade condicional, alegando que o médico já perdera tudo – a licença, a clínica, a carreira.
Mas talvez as palavras mais cortantes tenham sido as da família. Suzanne Morrison, mãe do ator, e o seu padrasto, o jornalista Keith Morrison, submeteram uma declaração impactante. Nele, descrevem Plasencia como “um dos mais culpados de todos”, uma figura que, em vez de tratar, alimentou a espiral. O acordo de confissão do médico detalha que, em setembro e outubro de 2023, forneceu diretamente a Perry e ao seu assistente, Kenneth Iwamasa, 20 frascos de cetamina, comprimidos e seringas. Apenas semanas depois, a 28 de outubro, o intérprete de Chandler Bing era encontrado sem vida na banheira de hidromassagem da sua casa em Los Angeles. A autópsia apontou como causa a “efeitos agudos da cetamina”.
Plasencia integrava um grupo de cinco indivíduos acusados pelo Departamento de Justiça norte-americano de operar uma rede clandestina de distribuição de cetamina em larga escala. Todos aceitaram acordos de delação premiada, num caso que escancarou os mecanismos sombrios pelos quais substâncias controladas chegam às mãos de figuras públicas, mesmo aquelas que, como Perry, haviam narrado abertamente uma batalha de décadas contra a dependência no seu livro de memórias. A justiça move-se, mas o vazio permanece – um eco amargo para os fãs de Friends e, claro, para quem acompanhou de perto o calvário do ator.
NR/HN/Lusa



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