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Vivemos numa época em que a exigência de perfeição se tornou quase um imperativo moral. Falamos muito de empatia, de saúde mental e de humanização, mas continuamos profundamente intolerantes perante aquilo que mais nos define enquanto seres humanos, a possibilidade do erro.
Na arena pública, o erro deixou de ser um acontecimento para se tornar um juízo.
E quando quem erra é médico, o juízo adquire contornos quase litúrgicos – queda, culpa, expiação. É uma narrativa tão antiga quanto o imaginário bíblico e tão atual quanto a velocidade com que um erro clínico se transforma num título sensacionalista, mas, para compreendermos o verdadeiro peso do erro, precisamos de regressar à filosofia, só ela nos dá a profundidade necessária para olhar para a vulnerabilidade humana sem a transformar em arma.
O erro como condição da ação humana
Na filosofia contemporânea, poucos pensadores refletiram tão profundamente sobre o erro como Paul Ricoeur, que descreve a ação humana como um campo de tensão permanente entre intenção e imprevisibilidade. Agir, no sentido ético mais profundo, significa aceitar que não controlamos tudo, que não sabemos tudo, que a vida resiste ao nosso domínio.
Ricoeur fala da “fragilidade da ação”, uma vulnerabilidade estrutural que não resulta de incompetência, mas da própria natureza da existência. Também Hannah Arendt sublinha que a ação humana se realiza sempre num mundo imprevisível, onde cada gesto desencadeia cadeias de consequências impossíveis de mapear totalmente.
Nesse sentido, errar não é um desvio da norma; é a consequência inevitável de sermos seres livres e finitos.
Em Medicina, esta verdade filosófica assume uma clareza brutal, o médico age sempre com conhecimento limitado, sob pressão, diante de dilemas trágicos, e dentro de margens de incerteza que nenhum algoritmo elimina. O erro clínico, quando surge, não nasce da negligência moral, mas do encontro entre o humano e o real.
Quando a sociedade transforma o erro em condenação
Mas o nosso tempo desenvolveu uma relação paradoxal com o erro.
Por um lado, valorizamos discursos de autenticidade; por outro, cultivamos uma cultura pública de punição imediata. Como alerta Zygmunt Bauman, vivemos numa modernidade líquida onde tudo é exposto, amplificado e consumido rapidamente, inclusive as falhas humanas. A fragilidade tornou-se espetáculo, o erro, mercadoria, a dor alheia, conteúdo.
O que esta lógica produz é uma ética de superfície, em vez de compreender, condena; em vez de maturidade, incentiva a fúria; em vez de reflexão, alimenta a humilhação.
Quando aplicada aos médicos, esta cultura é devastadora.
O profissional torna-se símbolo, ou herói infalível, ou culpado absoluto, em ambos os casos, é desumanizado.
Mas, como lembra Emmanuel Levinas, o rosto do outro obriga-nos eticamente, ver o outro apenas como culpado é recusar-lhe o estatuto de sujeito, é transformar a vulnerabilidade — a sua e a nossa — numa arma moral.
Reconhecer o erro: um ato ético e não um castigo
As tradições éticas clássicas — de Aristóteles à ética das virtudes — lembram-nos que o verdadeiro carácter de uma pessoa não se revela na ausência de falhas, mas na forma como responde às suas imperfeições.
Reconhecer o erro é um ato de coragem moral.
Assumir o erro é um ato de cuidado.
Aprender com o erro é um exercício de prudência, a phronesis aristotélica de saber agir bem diante da complexidade. Mas isto só é possível quando o ambiente é suficientemente seguro para permitir a verdade. Onde há medo, há ocultação, onde há vergonhas públicas, há silêncio, onde há linchamentos simbólicos, não há ética, apenas espetáculo.
Para uma nova ética pública do erro
Uma sociedade ética não é aquela que pretende eliminar o erro, isso seria desumano, mas aquela que sabe integrá-lo com responsabilidade.
Precisamos de uma ética pública que:
- reconheça a vulnerabilidade como parte da dignidade humana, como sublinha Levinas;
- distinga a falha inevitável da negligência moral;
- acolha a possibilidade do erro como espaço de aprendizagem, como ensinaria Arendt;
- permita reparar sem destruir o sujeito, como sugeriria Ricoeur na sua ética da solicitude.
Porque aquilo que nos honra não é a fantasia de infalibilidade.
É a maturidade de atravessar o erro sem perder a dignidade.
É a coragem de permanecer humanos mesmo quando falhamos.
E talvez essa coragem, frágil, humilde, profundamente humana, seja hoje o gesto ético mais necessário, não apenas na Medicina, mas em toda a vida pública.


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