Farmacêuticos pressionam autoridades por falhas no acesso à vacina da gripe

5 de Dezembro 2025

A Ordem exige que DGS e Infarmed atuem para que todos os cidadãos com recomendação médica, mesmo fora dos grupos de risco, consigam vacinar-se contra a gripe, após relatos de rutura no mercado privado

Num movimento que coloca a luz sobre uma fissura no plano de vacinação, a Ordem dos Farmacêuticos (OF) enviou esta sexta-feira um apelo formal e urgente à Direção-Geral da Saúde (DGS) e à autoridade do medicamento (Infarmed). O objectivo é claro: travar de imediato as dificuldades de acesso à vacina contra a gripe que estão a afectar pessoas fora dos grupos de risco, mas para quem um médico receitou a imunização.

A questão, que tem gerado desconforto silencioso em várias farmácias do país, ganhou contornos públicos depois de a Associação Nacional de Farmácias ter admitido a existência de problemas concretos. O cerne da questão reside no chamado contingente privado, a parcela de vacinas que as farmácias adquirem e vendem a quem não tem acesso gratuito. E esse stock, garantem fontes do sector, está a esgotar-se a um ritmo alarmante.

No comunicado que enviou às autoridades – e a que a Lusa teve acesso – a Ordem que representa os farmacêuticos não esconde a preocupação. A situação pode deixar desprotegidos cidadãos que, por decisão clínica, deveriam ser vacinados, mas que não se enquadram nos critérios rígidos de gratuitidade. “Independentemente do contingente, deve ser assegurada a vacinação das pessoas para as quais existe recomendação ou prescrição médica”, insiste a OF, oferecendo colaboração total para resolver o impasse.

O que explica, então, esta pressão anormal sobre o mercado privado? A Ordem avança com uma conjugação de fatores quase perfeita: o súbito arrefecimento das temperaturas, que tradicionalmente desperta a consciência para a gripe, e os recentes alertas públicos sobre uma nova variante circulante do vírus. Esta tempestade sazonal fez com que muitas pessoas, assustadas com as notícias, se dirigissem às farmácias só para descobrir que não havia vacina para elas.

Os números globais da campanha, contudo, pintam um quadro de sucesso. De acordo com a DGS, já foram administradas cerca de 2,3 milhões de doses desde setembro, aproximando-se da meta dos 2,5 milhões. A cobertura nos maiores de 60 anos ronda os 61%, um valor que sobe para mais de 83% nos idosos com 85 ou mais anos. Aliás, a própria diretora-geral da Saúde, Rita Sá Machado, mostrou-se esta semana publicamente satisfeita com a adesão dos portugueses e, em particular, dos profissionais de saúde.

Mas essa satisfação oficial pouco serve ao cidadão comum que, com uma receita na mão, é informado de que não há vacina disponível na farmácia da sua rua. A campanha de outono-inverno prolonga-se até final de abril de 2026, decorrendo em unidades do SNS e em cerca de 2500 farmácias aderentes. O apelo da Ordem dos Farmacêuticos é, no fundo, um alerta para que o sucesso estatístico não obscureça falhas pontuais – mas com impacto real na saúde das pessoas – no acesso ao medicamento. Resta saber se a DGS e o Infarmed conseguem, ou querem, actuar com a celeridade que a situação parece exigir.

NR/HN/Lusa

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