Crise Alimentar Pode Alastrar de Forma “Catastrófica” nos Camarões, Adverte Agência da ONU

6 de Dezembro 2025

O Programa Alimentar Mundial alerta que a fome atingirá níveis catastróficos em várias regiões dos Camarões se não angariar 67 milhões de dólares. A confluência de conflitos, deslocamentos e choques climáticos agrava uma das crises mais negligenciadas do globo

O espectro da fome ameaça transformar-se em realidade palpável e de contornos severos em várias zonas dos Camarões. O aviso é do Programa Alimentar Mundial (PAM), que lançou um alerta urgente: sem uma injeção imediata de pelo menos 67 milhões de dólares (cerca de 57 milhões de euros), a situação nutricional em certas áreas do país degradar-se-á para níveis classificados como catastróficos.

A declaração partiu do representante do PAM para os Camarões e São Tomé e Príncipe, Gianluca Ferrera, que não escondeu a apreensão. “Sem este financiamento, a maioria das atividades que o PAM e os seus parceiros têm vindo a implementar terão de ser interrompidas”, afirmou à France-Presse (AFP). Ferrera frisou que a paralisia “acarreta uma série de riscos” cuja magnitude é difícil de conter, dada a fragilidade extrema das populações afetadas.

O país, essa nação complexa da África Central que serve quase como um microcosmo do continente, está a ser estrangulado por uma conjugação perversa de crises. A violência da insurgência do Boko Haram mantém o norte sob pressão constante. A sul e a oeste, nas duas regiões de língua inglesa, uma revolta separatista que teima em prolongar-se continua a gerar deslocamentos e a destruir meios de subsistência. A leste, a fronteira com a República Centro-Africana é um ponto de entrada silencioso para um fluxo contínuo de refugiados que fogem da instabilidade do país vizinho.

Este triângulo de conflitos, por si só já um desafio hercúleo para qualquer governo, vê a sua letalidade ampliada pelos cada vez mais frequentes e imprevisíveis choques climáticos. Secas prolongadas e cheias irregulares destroem colheitas e reduzem à miséria comunidades outrora autossuficientes. O resultado, como se teme há anos, é uma crise de deslocamento de dimensões avassaladoras. Um relatório recente do Conselho Norueguês para os Refugiados classificou mesmo a crise migratória camaronesa como a mais negligenciada do mundo, um título sombrio que parece não conseguir mobilizar a atenção internacional necessária.

Os números, frios e incontornáveis, pintam o retrato de uma situação humana degradante. Mais de 3,3 milhões de camaroneses precisam atualmente de assistência humanitária para sobreviver. Desses, mais de 2 milhões são deslocados internos, pessoas obrigadas a abandonar as suas terras e a viver na precariedade absoluta, dependentes da ajuda externa que agora está em risco.

O contraste com anos anteriores é gritante e explica a alarme soado hoje. Em 2022, o PAM conseguiu assegurar um financiamento de 106 milhões de dólares para operações nos Camarões. Este ano, a tesouraria da agência só conta com 20 milhões, uma queda abrupta que reflete talvez a fadiga dos doadores ou a concorrência de outras emergências globais. A diferença, no terreno, traduz-se em racionamentos, na redução do número de beneficiários e, em última análise, em estômagos vazios.

O apelo de Gianluca Ferrera é, portanto, um último esforço para travar uma espiral que parece ganhar velocidade. Sem os fundos, a assistência alimentar vital que sustenta milhões será cortada. Os programas de nutrição para crianças e grávidas, cruciais para impedir danos permanentes, serão suspensos. A fome, uma palavra que soa a anacronismo no século XXI, prepara-se para escrever um novo e trágico capítulo nos Camarões. Tudo dependerá agora da resposta da comunidade internacional a um aviso que, segundo os peritos no terreno, não poderia ser mais claro.

NR/HN/Lusa

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