ERS sinaliza falhas graves no acesso a cuidados de saúde pelo programa ‘Ligue Antes, Salve Vidas’

6 de Dezembro 2025

Relatório da Entidade Reguladora da Saúde revela deficiências no programa que coordena o acesso a cuidados, com casos de utentes impedidos de obter assistência. Autoridades afirmam ter tomado medidas corretivas

Um relatório da Entidade Reguladora da Saúde (ERS), ainda não tornado público na íntegra, expõe falhas operacionais no projeto Ligue Antes, Salve Vidas, considerado a principal porta de entrada no Serviço Nacional de Saúde. O documento, citado pelo Diário de Notícias, refere situações concretas em que utentes ficaram literalmente sem acesso a qualquer assistência, violando preceitos constitucionais e a Carta de Direitos.

A análise do regulador abrange o funcionamento do programa em 27 unidades locais de saúde. No cerne da questão está uma violação clara do quadro legal, que inclui a própria portaria que estabeleceu o mecanismo. A ERS não se limitou a diagnosticar o problema; emitiu recomendações urgentes dirigidas à Direção-Executiva do SNS (DE-SNS), aos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) – que gere a Linha SNS 24 – e às unidades de saúde. O objetivo é claro: garantir que os cidadãos acedam a cuidados em tempo útil e evitar assim que o regulador tenha de intervir de forma mais dura.

A linguagem do relatório é incisiva. Critica a sobrecarga de competências atribuída a uma linha que ficou “assoberbada”, exigindo um reforço decisivo de meios e investimento. A mensagem final é que nenhum utente, referenciado ou não, pode ficar à porta de uma unidade de saúde sem receber os cuidados de que necessita.

Questionadas pela Lusa, a DE-SNS e os SPMS responderam em conjunto, procurando enquadrar as críticas. Argumentam que “as maiores dificuldades” apontadas pela ERS remontam ao período inicial do projeto. Desde então, garantem, “muito foi feito” para corrigir o rumo, com um ponto de viragem na implementação do chamado Sistema de Dados Mestre, que veio organizar a informação crítica do sistema. Afirmam com convicção que, pelo menos nos casos mais graves de bloqueio no acesso, não têm conhecimento de reincidências após essa melhoria. A articulação com as ULS para resolver problemas pontuais, dizem, é permanente.

Os SPMS, por seu lado, assumem ter recebido e acolhido todas as recomendações do regulador referentes a 2023, 2024 e ao primeiro quadrimestre de 2025. Um dos pontos focados foi o direito à reclamação. Para isso, melhoraram o circuito e reforçaram a equipa dedicada a esta matéria, assegurando que todas as queixas têm uma resposta atempada.

No capítulo do reforço da Linha SNS 24, as medidas descritas são várias. No front humano, promete-se um alargamento “sem precedentes” da bolsa de profissionais, que deve atingir 3.700 elementos ainda durante este inverno. Paralelamente, foram criados incentivos à permanência, seja em formação ou remuneratórios, e o recrutamento foi alargado às faculdades. Na organização do trabalho, tarefas administrativas foram desviadas para pessoal não clínico, libertando os profissionais de saúde para a triagem e aconselhamento.

A tecnologia surge como outro pilar da correção. Já está ativo um bot para sinalizar emergências antes da triagem clínica. E ainda durante dezembro, avançará uma solução com inteligência artificial para avaliação de sintomas respiratórios agudos, que incluirá um mecanismo de call-back e triagem digital através da aplicação móvel.

Nas suas conclusões, o relatório da ERS equilibra-se num fio de navalha. Reconhece os ganhos inegáveis do programa no combate à utilização inapropriada das urgências hospitalares. Mas, num tom quase de advertência, lembra que a importância crucial da Linha SNS 24 na gestão dos acessos não a pode afastar do estrito cumprimento da lei. A gestão não pode, em circunstância alguma, transformar-se em barreira.

Consulte o projeto Ligue Antes, Salve Vidas em: https://www.sns.gov.pt/ligue-antes-salve-vidas/
Mais informações sobre a Entidade Reguladora da Saúde: https://www.ers.pt/

NR/HN/Lusa

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