Saúde de Marwan Barghouti gera alarme após relato do filho

6 de Dezembro 2025

Qassam Barghouti afirmou, numa publicação posteriormente apagada, que o pai se encontra fisicamente debilitado na prisão israelita. A informação provocou uma vaga de preocupação no seio da sociedade palestiniana

Um episódio confuso e angustiante agitou esta quinta-feira o panorama político palestiniano. Qassam Barghouti, filho do líder encarcerado Marwan Barghouti, semeou profunda inquietação ao divulgar na sua página de Facebook um relato alarmante sobre o estado do pai. Na mensagem, que circulou rapidamente antes de ser removida, descrevia o histórico dirigente do Fatah como “fisicamente debilitado”.

A fonte da informação, segundo Qassam, teria sido um ex-companheiro de cela, um palestiniano recentemente libertado que lhe telefonara de um número israelita. Esse homem, cuja identidade não foi revelada, contou-lhe que guardas prisionais israelitas teriam partido várias costelas e dentes a Barghouti e chegado ao ponto de lhe cortarem uma orelha “para se entreterem”. A brutalidade da descrição, mesmo não confirmada por fontes oficiais independentes, atingiu um nervo sensível.

Percebendo o terramoto que a sua publicação desencadeava, o filho do preso político apagou-a, numa tentativa clara de conter o pânico. “Peço desculpa por preocupar tantas pessoas”, escreveu depois, num tom que misturava arrependimento com uma ansiedade palpável. “Espero que o meu pai e todos os outros prisioneiros estejam bem. Isso é tudo o que me importa.” Admitiu estar a tentar, sem sucesso até ao momento, reestabelecer contacto com o tal ex-recluso e que percorria todos os canais possíveis à procura de esclarecimentos.

A onda de choque do episódio atingiu de imediato as estruturas de Ramallah. A Comissão para os Assuntos dos Detidos da Autoridade Palestiniana emitiu um comunicado a afirmar que trabalha para obter informações credíveis, ao mesmo tempo que aludiu ao “assédio e intimidação” a que as famílias dos presos estão sujeitas. O Presidente Mahmud Abbas foi mais longe, condenando veementemente o alegado tratamento infligido a Barghouti e classificando-o como “um flagrante crime de guerra”. É um tom de condenação habitual, mas que desta vez ecoou num ambiente já eletrizado.

A publicação de Qassam surge num momento particularmente sensível, apenas dois dias depois de mais de 200 personalidades mundiais – dos cineastas Pedro Almodóvar e Ken Loach aos atores Javier Bardem e Mark Ruffalo, passando pela escritora Margaret Atwood e pelo músico Sting – terem apelado à libertação de Barghouti. Na carta aberta, referiam-se a ele como a figura de maior consenso na política palestiniana, vítima de um “julgamento viciado” e mantido atrás das grades, segundo sugerem, precisamente pela sua capacidade de unir fações. É essa aura, que lhe valeu a alcunha de “Nelson Mandela palestiniano”, que transforma qualquer rumor sobre a sua saúde num evento político de primeira magnitude.

Barghouti, de 66 anos, cumpre cinco penas de prisão perpétua desde 2004, condenado pelo assassínio de cinco israelitas durante a Segunda Intifada – acusação que sempre rejeitou, afirmando que a sua luta se dirigia contra a ocupação militar, não contra civis. Nos últimos anos, os seus advogados e família têm denunciado uma deterioração cruel das suas condições de encarceramento, agravada após os eventos de outubro de 2023, incluindo longos períodos de solitária e agressões físicas. Um vídeo amplamente divulgado no ano passado em que o ministro israelita da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, parecia gozar com o prisioneiro durante uma visita à cadeia, alimentou ainda mais a perceção de que Barghouti é alvo de um tratamento especial, marcado pela humilhação.

O caso continua a ser um dos nós mais complexos e emotivos do conflito. Para muitos palestinianos, Barghouti não é apenas um preso, mas um símbolo vivo da sua resistência e, potencialmente, da sua unidade futura. Por isso, cada suspiro sobre o seu bem-estar, mesmo quando emerge de forma truncada e através das redes sociais de um familiar desesperado, é recebido não como um mero boletim médico, mas como um sinal sobre o próprio estado da causa nacional.

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