![]()
Num desdobrar de esforços para apurar a origem do surto de peste suína africana (PSA) detetado no final de novembro na Catalunha, as autoridades sanitárias espanholas estão a conduzir inspeções detalhadas a cinco laboratórios. A ação segue-se à revelação de que a estirpe do vírus identificada nos javalis infetados do parque natural de Collserola, perto de Barcelona, coincide com uma variante de referência comummente utilizada em meios experimentais, a chamada “Georgia 2007”. Esta pista levou o ministério da Agricultura a considerar seriamente a hipótese, antes improvável, de uma fuga acidental a partir de uma instalação de investigação.
Salvador Illa, presidente do governo regional da Catalunha, confirmou a medida numa conferência de imprensa em Madrid. “Ordenámos uma inspeção de todas as instalações, de todos os centros localizados na zona de risco de 20 quilómetros, que trabalham com o vírus da peste suína africana”, afirmou, precisando que o número de laboratórios abrangidos “não é mais do que cinco”. A decisão marca uma guinada na investigação, que inicialmente apontava para um enchido contaminado, talvez dentro de uma sandes abandonada, como fonte da contaminação.
Os trabalhos no terreno, que envolvem centenas de militares, polícias e guardas florestais, continuam a todo o vapor para conter qualquer propagação. Até ao momento, e apesar dos 13 javalis mortos confirmados com a doença desde 28 de novembro, nenhum caso foi detetado nas 55 explorações pecuárias comerciais situadas no perímetro de risco. Os cerca de 80.000 suínos dessas quintas estão, segundo Illa, perfeitamente saudáveis e os seus produtos podem seguir para consumo humano mediante os protocolos de segurança, assegurando o abastecimento do mercado interno.
A suspeita sobre os laboratórios ganhou corpo após a análise genética realizada pelo laboratório de referência da União Europeia. O ministério espanhol explicou, num comunicado divulgado na sexta-feira, que o genoma do vírus em circulação na Catalunha não corresponde aos que têm assolado outros países europeus. Em vez disso, espelha fielmente a estirpe Georgia 2007, frequentemente empregue em infeções controladas para estudo do patógeno ou testes de vacinas. “É possível que a origem do vírus não esteja em animais ou produtos de origem animal provenientes de algum dos países em que há atualmente infeção”, admitiu o ministério, abrando caminho para a nova linha de investigação.
Entre os centros sob escrutínio está o IRTA-CReSA, uma instalação com unidades de confinamento biológico de nível 2 e 3 situada a poucos quilómetros da zona do foco. Na quinta-feira, um dos seus investigadores, Joaquim Segalès, havia já rejeitado categoricamente à Agence France-Presse a possibilidade de uma fuga acidental nas suas instalações. O contraponto entre a posição oficial e a defesa do laboratório introduz uma camada de tensão e incerteza ao processo, tipicamente humano num drama de saúde pública desta magnitude.
Espanha, o maior produtor de carne de porco da UE e terceiro a nível global, vive o seu primeiro surto de PSA desde 1994. A doença, inofensiva para humanos mas com mortalidade avassaladora em suínos e javalis, ameaça desestabilizar um setor que exporta anualmente cerca de 8.800 milhões de euros. O aparecimento do vírus numa área de grande circulação de caminhões, como os arredores de Collserola, parecia inicialmente encaixar na narrativa de uma introdução via produto contaminado. Agora, a sombra paira sobre a ciência que procura combatê-lo.
Os acessos a uma ampla zona do parque natural permanecem encerrados enquanto as inspeções prosseguem. O governo central prometeu uma investigação “complementar e exaustiva”, tentando equilibrar a urgência de respostas com o meticuloso trabalho de epidemiologia. Para os criadores catalães, cada hora de incerteza pesa, ainda que o gado dentro das cercas se mantenha, por enquanto, inexplicavelmente são.
NR/HN/Lusa



0 Comments