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Em comunicado, a associação que representa os corpos de bombeiros deixou claro o seu desagrado perante o teor do documento da Comissão Técnica Independente, cujas conclusões foram avançadas pelo jornal Público. A Fénix confessou mesmo que optou, de forma deliberada, por não apresentar quaisquer contributos durante este processo, algo que por si só levanta questões sobre a sua validade. A ideia de fundir o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) com a linha SNS24 numa única central, ou a abertura do transporte não emergente ao setor privado, são mudanças de tal modo profundas que, na visão da associação, carecem de uma base doutrinária sólida.
“Simplesmente não existe, que seja do nosso conhecimento, qualquer país que tenha implementado alterações de fundo num sistema desta natureza através de um método semelhante”, pode ler-se no documento, que acusa a CTI de tentar “reinventar a roda” ignorando modelos internacionais já consolidados. A crítica é ácida, sugerindo uma falta gritante de filosofia de base alinhada com os princípios do Serviço Médico de Emergência. Para fazer uma análise rigorosa, a Fénix vai agora solicitar formalmente ao Ministério da Saúde o acesso integral ao relatório e a toda a documentação que lhe deu origem.
Do outro lado da barricada, a presidente da CTI, Leonor Furtado, já havia defendido ao Público que a criação de uma central única traria “ganhos de eficiência e segurança”, tornando a resposta “mais rápida e imediata”. Mas os trabalhadores do próprio INEM também não se revêm no processo. A Comissão de Trabalhadores do instituto emitiu um comunicado a contestar veementemente as afirmações da CTI, que consideram não refletirem a realidade. A mágoa é palpável: “Não compreendemos nem aceitamos que a CTI tenha ignorado totalmente os profissionais do INEM, não ouvindo as suas estruturas representativas, que detêm conhecimento técnico e operacional insubstituível”. Para eles, tal omissão revela falta de respeito institucional e fragiliza, desde a raiz, a legitimidade de qualquer conclusão.
O clima, portanto, aquece-se em torno do futuro do INEM. Enquanto a comissão técnica aponta para uma reestruturação ambiciosa, quem está no terreno — bombeiros e profissionais do instituto — vê com ceticismo um processo que consideram nascido de um método questionável e alheio à sua experiência quotidiana. Um verdadeiro contrassenso, diriam alguns, num setor onde a coordenação é tudo. O Ministério da Saúde segura agora um relatório que promete refundar um pilar do socorro em Portugal, mas que, antes de qualquer discussão parlamentar, já enfrenta a resistência firme de quem opera na linha da frente.
NR/HN/Lusa



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