A Dívida Oculta na Saúde: O Preço do Subinvestimento em Equipamentos e Infraestruturas

8 de Dezembro 2025

O relatório "Health at a Glance 2025" da OCDE expõe uma fragilidade crónica do SNS: a despesa de capital é residual. Este subinvestimento em equipamentos e infraestruturas traduz-se em tecnologia obsoleta, hospitais degradados e listas de espera mais longas, comprometendo a qualidade dos cuidados e a segurança de doentes e profissionais

A despesa de capital em saúde em Portugal, que inclui a aquisição de equipamentos de diagnóstico e a construção ou renovação de hospitais, representa uma fatia reduzida do total da despesa em saúde. Este subinvestimento crónico, que o relatório “Health at a Glance 2025” da OCDE ajuda a contextualizar no panorama internacional, compromete gravemente a modernização tecnológica e a capacidade de resposta do sistema nacional de saúde (SNS). Enquanto as economias mais robustas da Europa entendem o investimento em saúde como um pilar estratégico para a resiliência e a inovação, Portugal vê-se asfixiado por uma lógica de curto prazo, onde a despesa corrente – sobretudo com salários e medicamentos – consome a esmagadora maioria dos recursos, relegando o investimento para as sobras orçamentais.

A renovação do parque tecnológico e a manutenção das infraestruturas hospitalares são, assim, as parentes pobres do orçamento da saúde. O relatório da OCDE não detalha o caso português, mas os dados europeus são elucidativos: países como a Alemanha, a Áustria ou a Suécia dedicam uma percentagem significativamente maior da sua despesa total em saúde ao investimento de capital. Esta diferença não é um mero detalhe contabilístico; reflete uma divergência profunda na visão sobre o que deve ser um serviço de saúde moderno. Enquanto estes países reinvestem de forma consistente na modernização dos seus ativos, em Portugal, a compra de um tomógrafo de última geração ou a reabilitação urgente de um bloco operatório são decisões frequentemente adiadas, sujeitas a ciclos políticos e a restrições orçamentais imprevistas.

A consequência direta e mais visível deste cenário é a existência de equipamentos de diagnóstico obsoletos em vários hospitais públicos. Ressonâncias magnéticas e tomógrafos computorizados (TAC) com mais de uma década de uso são uma realidade comum, gerando um efeito cascata nefasto. Para além de contribuírem para listas de espera mais longas devido a avarias frequentes e a tempos de exame mais lentos, produzem imagens de menor qualidade, o que pode comprometer a precisão do diagnóstico. Um radiologista de um hospital central queixou-se de um aparelho de TAC com mais de 15 anos: “Estamos a trabalhar com tecnologia desatualizada, o que se traduz em doses de radiação mais elevadas para os doentes e em imagens com menos definição. É como tentar encontrar um pormenor numa fotografia desfocada. O custo clínico desta situação é incalculável.”

Para além dos equipamentos, as próprias infraestruturas físicas mostram sinais alarmantes de degradação e inadequação às necessidades atuais. Um estudo encomendado pela Ordem dos Engenheiros a algumas dezenas de hospitais identificou problemas estruturais críticos, como infiltrações generalizadas, redes elétricas degradadas com risco de incêndio e sistemas de ventilação e climatização ineficientes. Estas condições não são apenas uma questão de conforto; põem em risco a segurança de doentes e profissionais, comprometem a esterilização de ambientes críticos como salas de operações e unidades de cuidados intensivos, e contribuem para um ambiente de trabalho desmotivador. O contraste com iniciativas como o Programa de Investimentos NHS do Reino Unido, que canaliza milhares de milhões de libras para a construção de novos hospitais e a modernização profunda de outros, é gritante e sublinha o fosso que separa Portugal dos seus parceiros europeus.

Este cenário de subinvestimento é ainda agravado por uma teia burocrática que estrangula a agilidade de gestão. A aquisição de equipamentos em Portugal está sujeita a procedimentos concursais demorados e complexos, que podem atrasar a sua instalação e entrada em funcionamento em anos. Um diretor clínico de um hospital no Centro do país explicou que a compra de um novo ecógrafo para a urgência pode demorar mais de dois anos desde a sua requisição até estar operacional: “Preenchemos a papelada, o processo fica encalhado em entidades superiores, o concurso é anulado, e recomeçamos. Enquanto isso, os médicos na urgência continuam a depender de um equipamento que já devia ter sido abatido, com implicações diretas no diagnóstico de emergência.” Esta lentidão burocrática, associada a restrições orçamentais crónicas, cria um ambiente de ineficiência e frustração que afasta os profissionais e prejudica os doentes.

O investimento em saúde não é um custo, mas um alicerce fundamental para a sustentabilidade do SNS. Não se trata apenas de construir edifícios novos, mas de assegurar que as ferramentas de trabalho dos profissionais de saúde estão atualizadas, que os espaços são seguros, funcionais e promotores de bem-estar, e que a capacidade diagnóstica e terapêutica está à altura dos desafios do século XXI. Neste capítulo, Portugal tem uma dívida acumulada que urge saldar. Ignorar esta realidade é condenar o SNS a uma lenta erosão da sua qualidade e capacidade, com custos humanos e económicos que, a prazo, serão incomparavelmente superiores aos do investimento que hoje se procrastina.

Fonte: OCDE (2025), Health at a Glance 2025: OECD Indicators, OECD Publishing, Paris. https://doi.org/10.1787/8f9e3f98-en

NR/OCDE/HN

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