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A cirurgia de ambulatório, que permite aos doentes regressarem a casa no mesmo dia da operação, representa uma fatia crescente e vital da atividade cirúrgica em Portugal, posicionando-se como um pilar para um Serviço Nacional de Saúde (SNS) mais eficiente e centrado no doente. No entanto, apesar do progresso consistente, o país permanece significativamente abaixo do seu potencial máximo, deixando por explorar oportunidades cruciais para aumentar a capacidade do sistema e reduzir as listas de espera cirúrgicas que afetam milhares de portugueses.
A adoção da cirurgia de ambulatório é, a nível internacional, um dos indicadores mais claros de modernidade e eficiência nos sistemas de saúde. Em Portugal, esta evolução tem sido palpável. Procedimentos de elevado volume, como a cirurgia de cataratas, várias intervenções ortopédicas (por exemplo, reparação de ligamentos do joelho e artroscopias), biópsias e até mesmo algumas cirurgias mais complexas, como as colecistectomias (remoção da vesícula biliar), têm vindo a ser realizados cada vez mais neste regime. Um cirurgião de um hospital central em Lisboa, que preferiu não ser identificado, explicou que, “quando bem planeada e com doentes adequadamente selecionados, esta abordagem é um ‘win-win’. O doente recupera mais rapidamente e com menor risco de infeção no conforto da sua casa, e o sistema liberta camas hospitalares preciosas, aumentando a sua rotatividade e capacidade de resposta.”
Contudo, os dados do relatório Health at a Glance 2025 da OCDE lançam uma luz crua sobre o caminho que ainda há a percorrer. O documento, que compara os sistemas de saúde dos países membros, sugere que Portugal ainda não atingiu a massa crítica de cirurgia de ambulatório observada nas nações mais avançadas. Enquanto países como os Países Baixos e os Estados Unidos realizam em regime de ambulatório mais de 80% de um vasto leque de intervenções consideradas elegíveis, Portugal apresenta percentagens consideravelmente mais modestas para os mesmos procedimentos. Esta discrepância não é apenas uma questão estatística; traduz-se em dias de internamento desnecessários, custos hospitalares mais elevados e, fundamentalmente, em uma subutilização da capacidade instalada para tratar mais doentes.
As barreiras a esta expansão são multifacetadas. A resistência à mudança por parte de alguns profissionais de saúde, por vezes céticos em relação à segurança de altas tão precoces, constitui um obstáculo significativo. Paralelamente, persiste uma lacuna crítica nos recursos destinados a organizar e garantir os cuidados pós-operatórios domiciliários. A falta de enfermeiros com formação específica para este acompanhamento na comunidade ou a dificuldade em assegurar transporte adequado para consultas de revisão podem inviabilizar uma alta segura. Acresce a isto a própria cultura dos doentes e das suas famílias, que, historicamente, associam a qualidade e a seriedade dos cuidados a um internamento mais longo, encarando a alta no mesmo dia com desconfiança e apreensão.
Para enfrentar estes desafios, a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) tem promovido diretrizes e incentivos financeiros para fomentar a cirurgia de ambulatório. No entanto, a implementação destas políticas é irregular entre hospitais e regiões, refletindo assimetrias na capacidade de adaptação e na dotação de recursos. Um testemunho que ilustra este paradigma é o de um doente submetido a uma hernia repair (herniorrafia) no norte do país. “A ideia de ter alta em menos de 12 horas foi inicialmente assustadora. Parecia que me estavam a pôr na rua demasiado cedo”, contou. “Mas a equipa explicou-me tudo, desde os cuidados a ter com o curativo aos sinais de alerta. No final, correu tudo bem e preferi mil vezes recuperar no meu sofá do que num hospital.”
O potencial de ganho em eficiência para o SNS, caso estas barreiras sejam ultrapassadas, é substancial. A expansão bem-sucedida do modelo de ambulatório libertaria capacidade física e humana, direcionando-a para os casos que verdadeiramente requerem internamento, como cirurgias de maior complexidade ou doentes com comorbilidades severas. Este ganho de eficiência é uma das alavancas mais poderosas para enfrentar as longas listas de espera que teimam em persistir. Para tal, será necessário um investimento concertado na educação e formação contínua dos profissionais de saúde, na sensibilização e empoderamento dos utentes, e, de forma crítica, no reforço das redes de cuidados de saúde primários e comunitários, assegurando que estão preparadas para fornecer o suporte técnico e emocional necessário no pós-operatório imediato. A revolução da cirurgia de ambulatório em Portugal está em marcha, mas a sua conclusão depende da capacidade do sistema em remover os últimos entraves, transformando um potencial por explorar numa realidade que beneficie todos.
Fonte: OCDE (2025), Health at a Glance 2025: OECD Indicators, OECD Publishing, Paris. https://doi.org/10.1787/8f9e3f98-en
NR/OCDE/HN



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