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HealthNews (HN) – Portugal tem uma das densidades médicas mais elevadas da Europa, mas alguns indicadores de saúde populacional, como a esperança de vida saudável, ficam aquém. A que atribui este “paradoxo português” e que mudanças estruturais são necessárias para traduzir mais recursos em melhores resultados em saúde?
Daniel Saldanha Resendes (DSR) – O nível de saúde da população não é explicado apenas pelos cuidados de saúde disponíveis, aliás apenas cerca de 20% do estado de saúde de uma população é atribuível aos cuidados de saúde, sendo que outros determinantes têm um peso muito relevante, como os fatores de risco modificáveis (ex. hábitos alimentares, consumo de álcool/tabaco), as condições socioeconómicas (ex. educação, trabalho) e o ambiente físico (ex. qualidade das habitações, poluição sonra e atmosférica). Portanto, não é necessariamente um paradoxo quando vemos ainda um nível de esperança de vida saudável inferior à média europeia, mas mais uma consequência de um país com elevada desigualdade social e com ainda elevadas taxas de pobreza e exclusão social. Relativamente ao número de médicos, é preciso perceber que a metodologia de contagem tende a inflacionar os números reais, uma vez que é feita através dos médicos que estão inscritos na Ordem dos Médicos, podendo muitos destes não estar a praticar no Serviço Nacional de Saúde (SNS) ou até em Portugal, por exemplo. As mudanças estruturais que teriam maior impacto e um menor custo na melhoria da qualidade de vida e da saúde da população seriam medidas que melhorassem as condições de vida das pessoas e que lhes trouxessem um maior controlo sobre a sua vida e sobre as escolhas que fazem. Uma visão centrada numa abordagem de saúde em todas as políticas em que todos os setores colocassem a saúde da população no centro das suas decisões.
HN – A dependência do Serviço Nacional de Saúde de profissionais de saúde estrangeiros tem sido apontada como um “esteio insustentável”. Que estratégias de atração e fixação de talentos nacionais são prioritárias para garantir a sustentabilidade do SNS a longo prazo, especialmente em regiões com maior carência?
DSR – Se os profissionais de saúde estrangeiros vêm para Portugal trabalhar no Serviço Nacional de Saúde, estão a contribuir para a sua sustentabilidade e não para a sua rutura. No entanto, é óbvio e necessário reforçar a capacidade de atrair e fixar profissionais recém-formados em Portugal no serviço público. Muitos profissionais não sentem que o SNS ofereça condições adequadas, nem o devido reconhecimento pelo trabalho que desenvolvem. Existem ainda muita burocracia no SNS e os profissionais ainda perdem muito tempo com atividades de baixo valor acrescentado. Torna-se importante garantir maior autonomia das Unidades Locais de Saúde, que devem funcionar como estruturas técnicas estáveis. É também necessário flexibilizar os modelos de contratação, investir na carreira e na progressão profissional. Em regiões com maior carência, é importante também perceber quais os principais motivos do desinteresse. Regiões como Lisboa e Vale do Tejo que têm uma elevada carência de médicos de família, terão certamente condições que explicam razões diferentes para a sua falta de atratividade em relação a regiões também carenciadas no interior do país. Portanto, no primeiro caso a disponibilização por parte das autarquias de habitação a preços acessíveis a estes profissionais poderá ser uma solução relevante e no segundo a possibilidade de teletrabalho total ou parcial para algumas áreas.
HN – O acesso universal é um princípio consagrado, mas sabemos que existem desigualdades regionais significativas e listas de espera para várias valências. Como pode o sistema evoluir para garantir que os Cuidados Continuados Integrados são uma realidade atempada para todos os portugueses, combatendo estas assimetrias?
DSR – O Serviço Nacional de Saúde nunca evoluiu para conseguir atingir a universalidade na resposta às necessidades de Cuidados Continuados da população, dependendo para isso da resposta do setor privado e social que representam 98% das vagas. O setor dos Cuidados Continuados Integrados atravessa dificuldades, porque faltam profissionais e muitas das carreiras existentes tornam difícil a retenção de trabalhadores devido à elevada rotatividade e à carga de trabalho que nem sempre é compensada de forma adequada. A escassez de alternativas leva a que muitos utentes com maior incapacidade tenham de permanecer em internamento hospitalar enquanto aguardam uma vaga na rede de cuidados continuados integrados, com impacto significativo nos custos para o SNS e na qualidade de vida de quem espera. O sistema pode evoluir para uma resposta, sempre que possível, mais baseada em cuidados domiciliários e centros de dia na comunidade, que já provaram ser modelos que reduzem custos e melhoram a qualidade de vida e os resultados em saúde dos utentes abrangidos. Nestes modelos podem ser instituídas ferramentas digitais e baseadas em inteligência artificial para monitorização dos utentes.
HN – A transição digital na saúde é vista como uma revolução inacabada. Para além da infraestrutura tecnológica, como podemos combater o baixo nível de literacia em saúde digital, especialmente entre os mais idosos e populações vulneráveis, para que ninguém fique para trás?
DSR – As soluções digitais desempenham um papel fundamental na construção de um sistema de saúde mais integrado, com melhor acesso a dados clínicos relevantes, maior proximidade entre utentes e profissionais e menores custos associados a deslocações desnecessárias. No entanto, é essencial reconhecer que estas soluções são sobretudo ferramentas para melhorar a eficiência do sistema e não podem transformar-se em barreiras de acesso para os utentes. A digitalização não pode estar condicionada à capacidade de cada pessoa utilizar um telemóvel ou um computador. Os serviços digitais devem ser complementares, nunca substitutos exclusivos dos canais presenciais, garantindo que ninguém fica excluído. Isto não invalida a importância de investir na literacia digital das populações mais vulneráveis, incluindo pessoas idosas ou grupos com menor acesso a tecnologias. Medidas como a expansão de universidades seniores, programas comunitários de formação em literacia digital ou iniciativas de apoio em zonas rurais e de difícil acesso podem ajudar estas populações a adquirir competências básicas.
HN – A saúde mental dos portugueses e a dos próprios profissionais de saúde são desafios prementes. Que medidas concretas devem ser implementadas nos locais de trabalho, nomeadamente no SNS, para promover ambientes psicologicamente seguros e prevenir o burnout, assegurando também a qualidade dos cuidados?
DSR – A saúde mental dos portugueses e dos profissionais de saúde é hoje um desafio central para a prosperidade do país, e o SNS não é exceção. Os dados mais recentes mostram bem a dimensão do problema. Estes valores ilustram um problema estrutural que se agrava com a elevada carga de trabalho, a falta de apoio na tomada de decisão, a falta de descanso adequado e a dificuldade em conciliar o trabalho com outras tarefas como o estudo e a investigação científica. Atuar nestas condições é essencial não só para proteger a saúde mental dos profissionais, mas também para garantir a qualidade dos cuidados prestados. Para contrariar esta tendência, é crucial promover mudanças organizacionais e culturais nos locais de trabalho. As equipas devem desenvolver ambientes de apoio mútuo e comunicação aberta, onde os profissionais sintam que podem levantar preocupações, expressar frustrações e pedir ajuda sem receio de represálias. A implementação de programas de bem-estar no trabalho, com acesso facilitado a apoio psicológico, deve ser uma prioridade no SNS. A criação de espaços seguros para partilhar ideias, dificuldades ou erros clínicos sem receio de punição contribui para equipas mais coesas e mais seguras.
HN – Perante um envelhecimento populacional acelerado, como pode Portugal promover de forma eficaz o “envelhecimento ativo” e reorientar o investimento do setor curativo para a prevenção de doença, de modo a aliviar a pressão sobre o sistema e melhorar a qualidade de vida dos mais idosos?
DSR – O envelhecimento é um processo contínuo que decorre ao longo de toda a vida. As políticas de saúde com maior impacto na manutenção da qualidade de vida e na redução da necessidade de recorrer a cuidados curativas são aquelas que adotam uma abordagem ao longo da vida, em vez de se concentrarem apenas em determinadas idades. O problema de focar apenas alguns grupos etários, como no “envelhecimento ativo”, é que muitos problemas de saúde que surgem numa fase mais avançada são preveníveis através de intervenções atempadas nos determinantes e fatores de risco modificáveis, presentes em diferentes momentos da vida. A ideia de que o envelhecimento da população ou o aumento da longevidade são os principais responsáveis pelo aumento da despesa em saúde é incorreta. A evidência demonstra que, nos países desenvolvidos, o crescimento da despesa resulta sobretudo dos preços de medicamentos e de novas tecnologias. Portanto, o desafio não reside tanto na mudança demográfica, mas sim na capacidade de definir políticas públicas justas, sustentáveis e eficazes para pessoas de todas as idades. O investimento intergeracional é essencial, o bem-estar das crianças e das populações em idade ativa molda trajetórias de longo prazo.
HN – A experiência da pandemia veio sublinhar a importância da preparação para crises de saúde pública. Que lições foram aprendidas e que mecanismos foram ou devem ser criados para fortalecer a resiliência do sistema face a futuras ameaças, sem comprometer a segurança do doente e os cuidados de rotina?
DSR – A pandemia evidenciou algumas lacunas no sistema de saúde pública, nomeadamente a escassez e falta de investimento em profissionais de saúde pública, falhas de interoperabilidade, fragilidades nas ferramentas digitais e limitações na capacidade de resposta coordenada. Também se verificou que medidas gerais como o confinamento prolongado e o teletrabalho tiveram aplicação e efeitos desiguais, exacerbando desigualdades em saúde. Apesar destas fragilidades, a pandemia trouxe aprendizagens. Ficou clara a necessidade de reforçar a preparação para emergências, de investir em preparação na saúde pública e de estruturar mecanismos permanentes de cooperação entre instituições. Entretanto, já foram implementadas algumas medidas alinhadas para colmatar falhas evidenciadas na resposta à pandemia. Desenvolveram-se ferramentas de teleconsulta, que permitiram manter cuidados durante picos de pressão. Ainda assim, há aspetos fundamentais que necessitam de ser reforçados. É importante consolidar planos verdadeiramente operacionais para emergências em saúde pública, garantir investimento contínuo nos serviços de saúde pública e integrar de forma plena a interoperabilidade e partilha de informação de várias fontes no SNS.
Entrevista MMM



Boa entrevista, o que permitiu ao entrevistado responder de forma sábia , segura e clara
Os temas tratados são de extrema importância para o futuro do SNS e por consequência para a saúde dos portugueses
Seria importante manter este foco em iniciativas semelhantes ou outras