Rosalina Tanganho, Aluna do “Curso de Especialização em Comunicação em Saúde e Educação e Comunicação em Ciências da Saúde”, exerce atividade profissional na Tabaqueira

Literacia em Saúde: Oportunidade para um Sistema Mais Inclusivo

12/08/2025

A literacia em saúde é muito mais do que saber ler uma receita médica. É a capacidade de aceder, compreender, processar e aplicar informação para tomar decisões informadas sobre cuidados, prevenção, redução de riscos, e bem-estar, assente na evidência científica disponível no momento. Entre avanços e fragilidades, Portugal apresenta-se com um acesso a cuidados de saúde assente na universalidade, com uma das esperanças de vida mais elevadas da OCDE, ultrapassando os 82 anos. 

Por outro lado, num país envelhecido (com baixa natalidade) e com assimetrias regionais (e socioeconómicas), uma baixa literacia em saúde e, em particular, a baixa literacia em saúde digital pode revelar-se uma “barreira” a essa universalidade, que afeta sobretudo idosos, pessoas com menor escolaridade e grupos socioeconómicos vulneráveis, segundo a OCDE. 

O desafio agrava-se com a incontornável digitalização acelerada (também pela pandemia), que trouxe ganhos inegáveis. Contudo, estima-se que uma parte considerável de portugueses com mais de 65 anos não consegue utilizar plataformas digitais de saúde, ficando dependentes de terceiros para tarefas básicas como marcar consultas ou renovar receitas. A tecnologia, que deverá democratizar o acesso, corre o risco de se tornar um novo fator de exclusão. Naturalmente a solução não será travar a inovação da digitalização (como instrumento), mas humanizá-la: criar pontos de apoio presencial, redes de mentoria digital e interfaces simples e acessíveis.

Adicionalmente, apostar na literacia e educação em saúde poderá significar um maior investimento na prevenção, importante pilar em que se pode investir mais. Em Portugal apenas 2,3% da despesa total em saúde é dedicada à prevenção (não muito longe da média da OCDE de 3,4%), o que se traduz num modelo que pode ser considerado mais “hospitalocêntrico”, com maior enfase na cura.  A OCDE indica nomeadamente que investir em prevenção pode melhorar a saúde e a longevidade, ao mesmo tempo que contribui para poupanças e crescimento económico.  O Plano Nacional de Saúde 2021-2030 identifica a promoção da literacia em saúde como prioridade estratégica, mas parece que as ações que existem no terreno são pontuais e carecem de uma visão integrada que envolva saúde, educação e sociedade civil.

Melhorar a literacia em saúde não é um custo, mas um investimento com retorno elevado: cidadãos mais informados podem adotar estilos de vida mais saudáveis, serem mais autónomos, aderirem melhor aos tratamentos e usarem os serviços de forma mais eficaz. Colocar a pessoa no centro significa capacitá-la para compreender e agir – uma “oportunidade”. Sem isso, será mais difícil garantir a universalidade (e inclusão) do sistema.

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