O relatório e o resto: o que os números da saúde não mostram

8 de Dezembro 2025

Miguel Múrias Mauritti com Constantino Sakellarides

O mais recente «Health at a Glance» da OCDe oferece, como sempre, um conjunto valioso de indicadores sobre a saúde em Portugal. Os dados, rigorosos e internacionais, permitem traçar um retrato de base que é, em muitos aspetos, encorajador. Fala-se de uma esperança de vida elevada, de uma rede de médicos alargada, de cobertura vacinal sólida. É um bom ponto de partida. Mas será o ponto de chegada?

A verdade é que, por mais nítida que seja a fotografia estatística, ela não consegue captar por inteiro a complexidade do terreno. A longevidade dos portugueses, por exemplo, é uma conquista, mas esconde nuances importantes. Parte desses anos adicionais são vividos com limitações, longe do ideal de um envelhecimento ativo e com qualidade. E há toda uma geografia de afetos e dependências que os números, por natureza, não registam.

O acesso é outra dessas fronteiras onde o relatório esbarra. Regista-se a insatisfação, mas o que isso significa no dia-a-dia? É a dificuldade em marcar uma consulta, a espera nas urgências — que tantas vezes funcionam como uma tábua de salvação —, ou a quase invisibilidade da saúde oral para largas faixas da população. É este o paradoxo que salta à vista: uma abundância no papel que, no concreto, se dissolve em carências. A distribuição de profissionais pelo país não é uniforme, e a saída de enfermeiros para outros mercados é um facto que tempera qualquer otimismo.

Governar um sistema desta dimensão exige mais do que boas intenções. Exige rumo. E aqui, talvez, esteja uma das fragilidades que os indicadores standard não conseguem medir. O SNS, com a sua dimensão colossal, parece por vezes navegar sem uma cartografia de médio prazo. As reformas sucedem-se, frequentemente sem o caldo de um debate alargado, e a falta de um plano estratégico consistente deixa o sistema à mercê de ventos e marés.

Nos hospitais, esta falta de fôlego estratégico traduz-se em realidades muito concretas: internamentos prolongados, escassez de camas em cuidados intensivos e, de forma particularmente sensível, um apoio ainda frágil nos cuidados continuados e paliativos. O país envelhece a um ritmo acelerado, mas a rede que deveria acolher esta realidade nem sempre está à altura. As famílias sentem este peso, um peso que não vem nos relatórios.

Até a transição digital, tantas vezes apontada como trunfo, esbarra num obstáculo social: a literacia de uma parte da população que mais precisa do SNS. A tecnologia avança, sim, mas pode, sem querer, aprofundar fossos em vez de os colmatar.

O que fica, então, da leitura do «Health at a Glance»? Fica a espinha dorsal de um sistema. Os seus ossos, digamos. Todos no lugar. O que o relatório não dá a ver é a textura desse mesmo sistema — a sua carne, os seus nervos, a forma como é habitado por quem dele precisa e por quem nele trabalha. A história completa do SNS é mais do que a soma das suas métricas. É a história de um serviço que, na prática, lida com assimetrias, pressões financeiras e uma certa orfandade de estratégia, enquanto responde, todos os dias, a quem bate à sua porta.

 

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