Vacina de dose única contra dengue chega ao SUS em 2026 após aprovação da Anvisa

8 de Dezembro 2025

Butantan-DV, desenvolvida no Brasil e aprovada para maiores de 12 anos, promete ser um divisor de águas no combate à doença, sobretudo para populações de acesso difícil na Amazónia

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou no dia 26 de novembro a primeira vacina de dose única contra os quatro sorotipos do vírus da dengue. Desenvolvida pelo Instituto Butantan, a Butantan-DV deve ser incorporada ao Programa Nacional de Imunizações no início do próximo ano, com mais de um milhão de doses prontas para distribuição. A novidade surge num contexto de urgência sanitária, após o Brasil ter registado em 2024 o seu pior ano de epidemia da doença, com 6,4 milhões de casos e perto de seis mil mortes.

Para Esper Kallas, diretor do Butantan, o imunizante representa uma “poderosa arma” contra a arbovirose que há décadas assombra o país. A eficácia global do produto, apurada em ensaios clínicos de fase III com 16 mil voluntários, ficou estabelecida em 74,7%. Contra as formas mais graves da doença, a proteção atingiu 91,6%. Dados ainda inéditos, que serão publicados na Nature Medicine, indicam uma eficácia de 100% na prevenção de hospitalizações.

A logística simplificada de uma única dose é apontada por especialistas como um avanço crucial para a realidade brasileira. “É muito mais difícil e dispendioso aplicar uma vacina de duas doses em regiões remotas e de difícil acesso, como a Amazónia, cortada por rios e com ligações terrestres ainda muito precárias”, observa o epidemiologista Jesem Orellana, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Com a Butantan-DV, comunidades indígenas e ribeirinhas poderão ter o esquema vacinal completo numa única visita de equipas de saúde, eliminando deslocações repetidas a postos distantes.

O imunizante é do tipo atenuado, composto pelos quatro vírus vivos mas enfraquecidos da dengue, e pode ser administrado em pessoas com ou sem histórico prévio da infeção. Uma característica que o diferencia, segundo o virologista Maurício Nogueira, da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, das outras duas vacinas aprovadas no país: a Dengvaxia, do laboratório Sanofi Pasteur, restrita a quem já teve a doença, e a Qdenga (TAK-003), da Takeda, que exige duas doses com intervalo de três meses. “Muitas pessoas que recebem a primeira dose não voltam para a segunda e ficam apenas parcialmente protegidas”, explica Nogueira, sublinhando que ambas as doses são essenciais para a proteção completa.

A prioridade imediata, conforme destacou Fernanda Boulos, diretora científica do Butantan, é abastecer o Sistema Único de Saúde (SUS) através do Ministério da Saúde. No entanto, o instituto já estabeleceu uma parceria com a empresa chinesa WuXi Vaccines para produzir 60 milhões de doses nos próximos dois anos, metade das quais deve ser entregue ainda em 2026. Este volume coloca o Brasil na rota do fornecimento internacional. Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, vê aqui uma mudança de patamar: “Com isso, o Brasil torna-se um ator estratégico na produção internacional de vacinas e poderá em breve fornecer a outros países latino-americanos também afetados pela doença”.

A autorização atual da Anvisa é para a faixa etária dos 12 aos 59 anos. O uso em grávidas, imunodeprimidos e idosos ainda está sob análise da agência, à espera de mais evidências. A definição dos grupos prioritários e da estratégia de vacinação nacional ficará a cargo de especialistas do Programa Nacional de Imunizações nas próximas semanas.

Apesar do otimismo, os especialistas fazem um alerta contundente: a vacina, sozinha, não erradicará a dengue. O controlo do mosquito Aedes aegypti mantém-se uma frente de batalha indispensável, num cenário em que alterações climáticas e urbanização desordenada criam condições ideais para a proliferação do vetor. “A vacina é importante, mas não significa que possamos negligenciar o controlo do mosquito”, reforça Jesem Orellana, lembrando os riscos paralelos de chikungunya e febre amarela. A vigilância e o investimento em medidas que reduzam a capacidade reprodutiva do inseto, insiste, são fundamentais.

A Butantan-DV é resultado de quase uma década de investigação, com resultados preliminares já publicados em revistas como The New England Journal of Medicine e The Lancet Infectious Diseases.

Este texto foi elaborado com base na informação disponibilizada pela SciDev.Net:
https://www.scidev.net/global/news/single-dose-dengue-vaccine-will-help-amazon-communities/

NR/HN/AlphaGalileo

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