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Imagem de entrada: Ricardo Araújo
O Conselho Europeu de Investigação (ERC) atribuiu esta terça-feira as suas bolsas Consolidator, um dos apoios mais competitivos e cobiçados no espaço académico europeu. Nesta edição, que distribui 728 milhões de euros por 349 investigadores, Portugal conseguiu colocar dois projetos na área das ciências da vida, somando um financiamento total de 4,1 milhões de euros.
Os contemplados são Juan Álvaro Gallego, neurocientista recentemente integrado na Fundação Champalimaud, e Ricardo Araújo, paleontologista do Instituto Superior Técnico e do Centro de Recursos Naturais e Ambiente (CERENA). A taxa de sucesso global do concurso, sobretudo na área das ciências da vida onde se inscreveram 823 propostas, ficou pelos escassos 11,2%. Não há quotas por país, a seleção baseia-se apenas no mérito.
Juan Gallego vai receber 2,1 milhões de euros para o projeto SELECT, que pretende desvendar como o cérebro aprende, executa e adapta movimentos especializados, como alcançar ou agarrar. A abordagem é arrojada: em vez de olhar para regiões cerebrais de forma isolada, a equipa irá registar e manipular múltiplas áreas simultaneamente em ratinhos, enquanto estes aprendem tarefas complexas em ambientes de realidade virtual. A ideia é mapear a evolução do controlo motor desde a fase de aprendizagem até à perícia, e depois perceber como o sistema se adapta quando as regras do jogo mudam.
“Este financiamento irá permitir-nos avançar na entusiasmante investigação básica”, afirmou Gallego, que liderará o novo Neocybernetics Lab no Centre for Restorative Neurotechnology da Champalimaud. O cientista destacou também o potencial translacional do trabalho, que poderá um dia informar novas abordagens para tratar doenças como AVC, lesões da medula espinhal ou Parkinson. O seu percurso inclui passagens pela Northwestern University e pelo Imperial College London, antes de se fixar em Lisboa.
Do outro lado da cidade, no Técnico, Ricardo Araújo embarca numa viagem de 2 milhões de euros para um passado muito mais remoto. O projeto DAEDALUS propõe-se a investigar a origem evolutiva da endotermia – a capacidade de manter uma temperatura corporal estável – na linhagem que liga os dinossauros às aves. O método é tão engenhoso quanto o nome do projeto: usar a anatomia do ouvido interno fossilizado para estimar a temperatura corporal de animais extintos.
A chave está nos canais semicirculares, estruturas relacionadas com o equilíbrio. A sua morfologia, argumenta a equipa, guarda uma relação quantificável com a viscosidade dos fluidos que os preenchem, a qual, por sua vez, varia com a temperatura. “Tentar determinar a temperatura de um dinossauro apenas com fósseis é como tentar adivinhar a velocidade máxima de um carro antigo apenas olhando para a sua carcaça enferrujada”, compara Araújo. O DAEDALUS quer, portanto, “reconstruir o motor” e analisar o “combustível”.
Mas há obstáculos práticos sérios. “Atualmente, existem dados de viscosidade apenas para uma espécie de aves e nenhuma para espécies de répteis”, admitiu o paleontologista. O projeto terá de colmatar estas lacunas, desenvolvendo até um nanoviscosímetro e aplicando algoritmos de inteligência artificial para criar uma “lente” nova que permita ler detalhes fisiológicos até agora invisíveis.
As bolsas Consolidator do ERC são destinadas a investigadores com entre 7 a 12 anos de experiência pós-doutoral, representando um patamar crucial para consolidar equipas e linhas de investigação ambiciosas. O financiamento é concedido por um período de cinco anos.
PR/HN




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