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O Health at a Glance 2025 deixa uma mensagem desconfortável: Portugal tem aumentado o investimento em saúde, mas continua incapaz de transformar dinheiro em resultados. De facto, o reforço contínuo dos orçamentos de Estado para a saúde não tem sido suficiente para melhorar os indicadores nacionais. Embora o país gaste 10,2% do PIB em saúde, persistem fragilidades estruturais que impedem Portugal de transformar mais despesa em melhores cuidados para os cidadãos.
Em 2024, apenas 58% dos portugueses declararam estar satisfeitos com a disponibilidade de cuidados de qualidade na sua zona de residência, um valor seis pontos abaixo da média da OCDE e distante dos níveis registados na Suíça, Bélgica ou Dinamarca, todos acima dos 86%. Por outro lado, 12% da população adulta classifica a sua saúde como “má” ou “muito má”, um valor acima da média europeia.
Por detrás das percentagens, estão portugueses que continuam a ter dificuldade em aceder a cuidados básicos, sobretudo fora dos grandes centros. O litoral concentra recursos, enquanto o interior enfrenta escassez de profissionais e dificuldades de acesso que se traduzem em menor esperança de vida e maior mortalidade precoce.
O relatório evidencia também desafios associados ao envelhecimento. Em Portugal, tal como no conjunto da OCDE, a esperança de vida aos 65 anos continuou a aumentar nas últimas décadas, registando-se um ganho superior a 3,5 anos desde 2000. No entanto, estes anos nem sempre são vividos com qualidade: mais de 7% das pessoas com 65 ou mais anos referem limitações graves nas atividades diárias, e o total de pessoas com limitações aproxima-se dos 30%.
Apesar deste quadro, a prevenção continua subfinanciada: Portugal está entre os países da OCDE onde esta rubrica representa menos de 3% da despesa total, um valor que tem permanecido praticamente inalterado ao longo da última década. Também a literacia em saúde, identificada como prioridade estratégica, continua a depender sobretudo de iniciativas dispersas, sem uma estratégia nacional consistente.
No que respeita ao medicamento, o relatório mostra que os fármacos dispensados em farmácias comunitárias representam cerca de um sexto da despesa total em saúde na OCDE e que o crescimento desta categoria tem sido mais moderado do que noutros setores. Entre os países da OCDE, observa-se também um aumento significativo no consumo de medicamentos associados a doenças crónicas, como antidiabéticos, reguladores do metabolismo lipídico ou antidepressivos.
No segmento hospitalar, a OCDE assinala igualmente um crescimento expressivo da despesa. Já no campo dos biossimilares, Portugal tem uma quota superior a 25%, um valor alinhado com a média dos países que mais recorrem a estes medicamentos, mas ainda longe do potencial existente.
A análise da OCDE revela que Portugal se encontra entre os países com menor despesa anual em equipamentos, infraestruturas e tecnologia, ficando sistematicamente abaixo de 0,5% do PIB, muito abaixo das economias que investem de forma consistente na modernização tecnológica.
Por fim, o documento identifica dificuldades na adoção de inovação, refletidas na lentidão dos processos de avaliação e incorporação de novas tecnologias de saúde, o que prolonga o tempo de acesso para os doentes.
Os dados são claros: não estamos a melhorar ao ritmo necessário. Investir mais é importante, mas não basta. É essencial reformar políticas, integrar respostas entre setores e garantir que cada euro público se traduz efetivamente em melhores cuidados. Portugal não precisa apenas de gastar mais, mas principalmente de gastar melhor: com visão, continuidade e coragem para reformar o que permanece imobilizado.


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