Luís Sousa: Professor e Coordenador na ESSATLA, Escola Superior de Saúde Atlântica

Investigação em Enfermagem: O que está a mudar?

12/09/2025

A investigação em Enfermagem está a assumir um papel cada vez mais decisivo na transformação dos sistemas de saúde. Num mundo marcado pelo envelhecimento populacional, multimorbilidade e escassez de recursos humanos, a produção de conhecimento científico por enfermeiros é vista como motor essencial para alcançar a Cobertura Universal dos Cuidados de Saúde e reduzir desigualdades.

Tanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) como o Conselho Internacional de Enfermeiros (CIE) têm salientado esta necessidade urgente, apontando caminhos e prioridades para a próxima década. As estratégias globais para Enfermagem e Obstetrícia 2021–2025 da OMS definiam quatro eixos prioritários – educação, emprego, liderança e prestação de cuidados – com o objetivo de assegurar formação de qualidade, oportunidades de carreira e ambientes de trabalho seguros para os enfermeiros, procurando ainda garantir o seu reconhecimento nos sistemas de saúde.

Os relatórios mais recentes da OMS, como o State of the World’s Nursing 2025, evidenciam um aumento de 27,9 para 29,8 milhões de enfermeiros em cinco anos. No entanto, também destacam desigualdades persistentes, sobretudo em regiões de baixos rendimentos. Para a investigação, isto traduz-se na necessidade de produzir evidência sobre estratégias de retenção, modelos de prática avançada, impacto económico da liderança de enfermagem e inovação em cuidados primários e comunitários, procurando assim responder às necessidades reais dos sistemas de saúde.

Este ano, o CIE apresentou uma nova definição de “enfermagem” e de “enfermeiro”, destacando a natureza científica, ética e social da profissão. O documento sublinha a responsabilidade de promover cuidados centrados nas pessoas, culturalmente seguros e sustentados em evidência, enquanto alerta para a crise global marcada pela exaustão, migração e dificuldades de retenção. Assim, investigar o impacto das condições laborais, da violência no trabalho e de programas de bem-estar organizacional emerge como um eixo crucial para garantir uma força de trabalho resiliente, alinhando-se diretamente com as recomendações da OMS, que reforça que sem ambientes dignos não há sustentabilidade possível.

Tanto a OMS como o CIE têm também convergido na identificação de três domínios estratégicos de investigação. O primeiro é a “reabilitação”, considerada componente indispensável da Cobertura Universal dos Cuidados de Saúde, exigindo estudos sobre integração de serviços, custo-efetividade e resultados funcionais. O segundo diz respeito à “saúde digital”, incluindo conceitos como a telenfermagem e a teletreabilitação, como meios para ampliar o acesso de forma segura e equitativa. Já o terceiro foca o “impacto das alterações climáticas e crises humanitárias” na força de trabalho, chamando à investigação sobre planeamento, segurança e resiliência das equipas.

Mas, mais do que produzir conhecimento ou acumular publicações, o desafio atual passa por transformar a evidência em políticas concretas de envelhecimento e de saúde, bem como em recomendações que melhorem práticas no terreno. A investigação em Enfermagem deve gerar dados úteis para governos, entidades reguladoras e comunidades, integrando indicadores reportados pelas pessoas e famílias – Patient-reported outcome measures, Patient-reported experience measures e Family-Reported Outcomes Measures –, avaliações económicas e metodologias participativas que aproximem a ciência da experiência real dos cidadãos.

A convergência entre OMS e CIE oferece uma oportunidade única: alinhar produção científica, definição de políticas e valorização profissional. Cabe agora às instituições académicas, associações profissionais e enfermeirosinvestigadores aproveitar este momento para consolidar uma Enfermagem mais visível, influente e transformadora.

A investigação em Enfermagem não é, por isso, apenas do domínio académico. Assume-se, cada vez mais, como uma ferramenta estratégica para garantir sistemas de saúde resilientes, justos e centrados nas pessoas e famílias. A OMS fornece o guia e o CIE dá a identidade e a voz global. Juntas, apontam para uma profissão com maior protagonismo no futuro da saúde.

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

FNAM alerta: Decreto-Lei das urgências regionais ameaça cuidados de proximidade

A Federação Nacional dos Médicos (FNAM) denuncia que o Decreto-Lei recentemente publicado pelo governo de Montenegro, que trata da concentração das urgências regionais, representa um ataque aos cuidados de proximidade aos cidadãos e coloca em risco grávidas, recém-nascidos e utentes em todo o país.

Correia de Campos apela ao PS: votem em Gouveia e Melo

Num discurso inflamado em Oeiras, o antigo ministro socialista Correia de Campos apelou aos eleitores do PS para rejeitarem a disciplina partidária e votarem no candidato presidencial Henrique Gouveia e Melo

CPAS mantém regime obrigatório e afasta hipótese de adesão à Segurança Social

A Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores não permitirá a transferência dos seus beneficiários para a Segurança Social. O presidente reeleito, Victor Alves Coelho, justificou que uma saída em massa poria em risco o pagamento das pensões atuais. Foram anunciadas novas medidas de flexibilidade contributiva

Cova da Beira reduz em 88% as cirurgias com espera superior a um ano

A Unidade Local de Saúde da Cova da Beira resolveu 96% das cirurgias pendentes do final de 2024 e reduziu em 88% o número de utentes que esperavam há mais de um ano por intervenção. A lista global de espera cirúrgica diminuiu 27% durante 2025, apesar do ingresso de mais de 2.300 novos casos.

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights