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No início da minha carreira, ainda como médico interno de Medicina do Trabalho, fui confrontado com uma sinceridade brutal que, na altura, me deixou desarmado.
Uma professora universitária, nos seus quarentas e tais anos, olhar desconfiado e postura de quem estava à defesa e visivelmente desconfortável, entrou no meu consultório para um exame de saúde e disparou: “Desconheço a relevância desta consulta. Não sei para que serve a Medicina do Trabalho.”.
Esta seria uma excelente introdução para nos tornarmos rapidamente amigos – o que, como poderão calcular, não aconteceu. A pergunta, despida de filtro, mas cheia de retidão, foi o ecoar do pensamento silencioso de muitos. E a resposta não pode ser lírica nem se esconder atrás do habitual “Fuma? Bebe? Dói alguma coisa?”, que já todos ouvimos falar. Isso é pouco e faz parte do passado, mas foi um momento de reflexão profissional.
A Medicina do Trabalho que defendo, e que vejo nascer na dedicação total das novas gerações de médicos, é uma disciplina de charneira civilizacional. É com uma enorme esperança que olho para os médicos internos de Medicina do Trabalho, de quem tenho o privilégio de ser orientador de formação, e que veem nesta especialidade o seu grande propósito e vocação, com total elevação na defesa da qualidade e do valor da boa prática. Tenho também plena convicção que o futuro será transformador para a nossa área.
Há uma beleza austera nesta especialidade. O médico do trabalho não é só um clínico, faz muito mais que isso. É quem tem a responsabilidade erudita de adaptar o trabalho ao Homem. Fá-lo quando recebe um trabalhador após uma ausência prolongada ou quando gere um acidente de trabalho. Não trata apenas um corpo, mas reabilita uma vida.
É imperativo dizê-lo com clareza que o “bom trabalho” é o maior motor de saúde pública que possuímos. O “bom trabalho”, e ressalvo que tem mesmo de ser bom, realiza a pessoa, promove a reabilitação, melhora indicadores de saúde e permite a plena participação do indivíduo na sociedade.
Sabe-se, por evidência e por experiência, que o afastamento prolongado do trabalho se associa a maus resultados. Há aumento da mortalidade, precipitada maioritariamente por doenças pulmonares, cardiovasculares e, tragicamente, pelo suicídio; assim como pior saúde mental e mais gastos em saúde, como em consultas, internamentos e medicamentos. Defendo mesmo que o trabalho digno não dá apenas sustento, mas estrutura a mente e integra o indivíduo na sociedade.
E se é inegável o benefício da boa Medicina do Trabalho para o individuo, que o reintegra, que promove a sua saúde e realização, também é fundamental a atuação desta especialidade para as empresas. Ao confiarem e poderem contar com ativos que trabalham com saúde e propósito, é a própria sociedade que se beneficia. E é precisamente neste ponto, na gestão do coletivo, que vejo um enorme potencial para a Medicina do Trabalho.
Assim, vejo o médico do trabalho como um líder estratégico. Sinto um enorme compromisso no meu dia-a-dia em promover uma linguagem clara e assertiva, que tranquilize o indivíduo quanto ao seu trabalho e ao que pode fazer com segurança; mas também que clarifique às chefias as reais capacidades e os limites de segurança desse trabalhador.
Para mim, o médico do trabalho é o agente que absorve o abismo da incerteza – dos medos do trabalhador às dúvidas das chefias – e o devolve sob a forma de clareza, segurança e objetividade para todos. É apenas com uma liderança clara que podemos esperar a paz social, tão essencial nos locais onde todos trabalhamos. Afinal, se passamos 40 horas semanais no mesmo local, essa convivência tem de ser, no mínimo, saudável. A vida vive-se vivendo, não apenas a aguardar os parcos dias de férias.
Semanalmente, escuto histórias de vidas complexas e desgastadas, de pessoas que se sentem ansiosas e tristes no seu trabalho. Ao intervir antes que o problema se instale, sinto que toco no coração da pessoa que está à minha frente. Isso é raro na Medicina e muito transformador para mim. Sinto que consigo intervir antes de “já ser tarde demais”, um privilégio que poucas especialidades possuem.
E isto deve-se, em grande medida, a uma particularidade da Medicina do Trabalho: os seus exames periódicos. Ao avaliar a aptidão laboral anualmente ou de dois em dois anos, consigo identificar estados críticos antes que se tornem doenças graves, praticando uma real prevenção inteligente e assumindo um papel decisivo na promoção da saúde.
Muitos dirão que a Medicina do Trabalho não tem o glamour da urgência médica, onde se salvam vidas no fio da navalha. Não discordo disso, mas o nosso campo de jogo é diferente. Quando a Medicina do Trabalho é executada com excelência, quando acrescenta valor e se debate pela qualidade, pode parecer que nada acontece. Não há sirenes, corridas nem heroísmo visível, apenas um sistema que flui de forma silenciosa.
E é aqui que se responde à questão da cética professora: “Para que serve a Medicina do Trabalho?”. Serve para que tudo funcione tão bem, que o médico do trabalho se torne invisível. Porque, quando é possível, a verdadeira glória não é curar uma doença grave, é garantir que a pessoa nunca chegue a estar doente.


Concordo plenamente com o que foi exposto.
Acrescento que na parte da Enfermagem do “trabalho”, seja muito paralelo.
Não é só a vacina que administra mas o tempo que se investe na prevenção de doença e do bem estar , do profissional, no seu local de trabalho.
Passamos mais tempo a trabalhar que no convivio familiar.
Enfermagem está presente, quando um profissional manifesta as suas preocupações e diz com frequência “não temos quem nos ouça “.
Realmente a satisfação profissional é muito grande ao ouvir, um “muito obrigada” sentido e emocionado, da parte do trabalhador.
A Saúde Ocupacional, tem uma área de ação muito basta e por isso fica muitas vezes “diluida” no campo da Medicina.