Nuno Saldanha: Médico especialista em Medicina do Trabalho e Candidato pela Lista A ao Colégio de Medicina do Trabalho; Fellow of the European Board in Occupational Medicine e Pós-graduado em Gestão na Saúde pela Católica Porto Business School

Para que serve a Medicina do Trabalho?

12/09/2025

No início da minha carreira, ainda como médico interno de Medicina do Trabalho, fui confrontado com uma sinceridade brutal que, na altura, me deixou desarmado.

Uma professora universitária, nos seus quarentas e tais anos, olhar desconfiado e postura de quem estava à defesa e visivelmente desconfortável, entrou no meu consultório para um exame de saúde e disparou: “Desconheço a relevância desta consulta. Não sei para que serve a Medicina do Trabalho.”.

Esta seria uma excelente introdução para nos tornarmos rapidamente amigos – o que, como poderão calcular, não aconteceu. A pergunta, despida de filtro, mas cheia de retidão, foi o ecoar do pensamento silencioso de muitos. E a resposta não pode ser lírica nem se esconder atrás do habitual “Fuma? Bebe? Dói alguma coisa?”, que já todos ouvimos falar. Isso é pouco e faz parte do passado, mas foi um momento de reflexão profissional.

A Medicina do Trabalho que defendo, e que vejo nascer na dedicação total das novas gerações de médicos, é uma disciplina de charneira civilizacional. É com uma enorme esperança que olho para os médicos internos de Medicina do Trabalho, de quem tenho o privilégio de ser orientador de formação, e que veem nesta especialidade o seu grande propósito e vocação, com total elevação na defesa da qualidade e do valor da boa prática. Tenho também plena convicção que o futuro será transformador para a nossa área.

Há uma beleza austera nesta especialidade. O médico do trabalho não é só um clínico, faz muito mais que isso. É quem tem a responsabilidade erudita de adaptar o trabalho ao Homem. Fá-lo quando recebe um trabalhador após uma ausência prolongada ou quando gere um acidente de trabalho. Não trata apenas um corpo, mas reabilita uma vida.

É imperativo dizê-lo com clareza que o “bom trabalho” é o maior motor de saúde pública que possuímos. O “bom trabalho”, e ressalvo que tem mesmo de ser bom, realiza a pessoa, promove a reabilitação, melhora indicadores de saúde e permite a plena participação do indivíduo na sociedade.

Sabe-se, por evidência e por experiência, que o afastamento prolongado do trabalho se associa a maus resultados. Há aumento da mortalidade, precipitada maioritariamente por doenças pulmonares, cardiovasculares e, tragicamente, pelo suicídio; assim como pior saúde mental e mais gastos em saúde, como em consultas, internamentos e medicamentos. Defendo mesmo que o trabalho digno não dá apenas sustento, mas estrutura a mente e integra o indivíduo na sociedade.

E se é inegável o benefício da boa Medicina do Trabalho para o individuo, que o reintegra, que promove a sua saúde e realização, também é fundamental a atuação desta especialidade para as empresas. Ao confiarem e poderem contar com ativos que trabalham com saúde e propósito, é a própria sociedade que se beneficia. E é precisamente neste ponto, na gestão do coletivo, que vejo um enorme potencial para a Medicina do Trabalho.

Assim, vejo o médico do trabalho como um líder estratégico. Sinto um enorme compromisso no meu dia-a-dia em promover uma linguagem clara e assertiva, que tranquilize o indivíduo quanto ao seu trabalho e ao que pode fazer com segurança; mas também que clarifique às chefias as reais capacidades e os limites de segurança desse trabalhador.

Para mim, o médico do trabalho é o agente que absorve o abismo da incerteza – dos medos do trabalhador às dúvidas das chefias – e o devolve sob a forma de clareza, segurança e objetividade para todos. É apenas com uma liderança clara que podemos esperar a paz social, tão essencial nos locais onde todos trabalhamos. Afinal, se passamos 40 horas semanais no mesmo local, essa convivência tem de ser, no mínimo, saudável. A vida vive-se vivendo, não apenas a aguardar os parcos dias de férias.

Semanalmente, escuto histórias de vidas complexas e desgastadas, de pessoas que se sentem ansiosas e tristes no seu trabalho. Ao intervir antes que o problema se instale, sinto que toco no coração da pessoa que está à minha frente. Isso é raro na Medicina e muito transformador para mim. Sinto que consigo intervir antes de “já ser tarde demais”, um privilégio que poucas especialidades possuem.

E isto deve-se, em grande medida, a uma particularidade da Medicina do Trabalho: os seus exames periódicos. Ao avaliar a aptidão laboral anualmente ou de dois em dois anos, consigo identificar estados críticos antes que se tornem doenças graves, praticando uma real prevenção inteligente e assumindo um papel decisivo na promoção da saúde.

Muitos dirão que a Medicina do Trabalho não tem o glamour da urgência médica, onde se salvam vidas no fio da navalha. Não discordo disso, mas o nosso campo de jogo é diferente. Quando a Medicina do Trabalho é executada com excelência, quando acrescenta valor e se debate pela qualidade, pode parecer que nada acontece. Não há sirenes, corridas nem heroísmo visível, apenas um sistema que flui de forma silenciosa.

E é aqui que se responde à questão da cética professora: “Para que serve a Medicina do Trabalho?”. Serve para que tudo funcione tão bem, que o médico do trabalho se torne invisível. Porque, quando é possível, a verdadeira glória não é curar uma doença grave, é garantir que a pessoa nunca chegue a estar doente.

 

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1 Comment

  1. Arminda Sobral

    Concordo plenamente com o que foi exposto.
    Acrescento que na parte da Enfermagem do “trabalho”, seja muito paralelo.
    Não é só a vacina que administra mas o tempo que se investe na prevenção de doença e do bem estar , do profissional, no seu local de trabalho.
    Passamos mais tempo a trabalhar que no convivio familiar.
    Enfermagem está presente, quando um profissional manifesta as suas preocupações e diz com frequência “não temos quem nos ouça “.
    Realmente a satisfação profissional é muito grande ao ouvir, um “muito obrigada” sentido e emocionado, da parte do trabalhador.
    A Saúde Ocupacional, tem uma área de ação muito basta e por isso fica muitas vezes “diluida” no campo da Medicina.

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