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A digitalização do setor da saúde em Portugal conheceu um impulso histórico durante a pandemia, mas a sua implementação permanece profundamente fragmentada, desenhando um panorama de contrastes onde conquistas notáveis coexistem com estrangulamentos persistentes. Esta revolução digital, uma obra inacabada, está a criar um sistema de saúde a duas velocidades, onde o potencial de eficiência é minado por barreiras técnicas e sociais que ameaçam a equidade no acesso aos cuidados. O relatório “Health at a Glance 2025” da OCDE fornece o contexto internacional para esta análise, destacando que, em 2023, as teleconsultas representaram, em média, 13% de todas as consultas médicas nos países membros, um salto quântico face aos níveis pré-pandemia. Em Portugal, a plataforma SNS 24 serviu como o motor principal desta transição forçada, permitindo a milhões de portugueses acederem a cuidados de saúde sem sair de casa, num feito logístico inegável. Contudo, por detrás deste sucesso inicial, escondem-se assimetrias profundas e preocupantes que dividem a população.
A primeira grande fractura é, inquestionavelmente, a digital. A narrativa de um país totalmente conectado esbarra na realidade sociodemográfica. Um médico num centro de saúde de um bairro social na área metropolitana de Lisboa expõe cruamente esta realidade: “Muitos dos meus doentes mais idosos ou com menos recursos não têm smartphone, ou não sabem como usá-lo para uma videoconsulta. Eles ficam para trás”. Esta exclusão não é um mero detalhe operacional; é uma falha sistémica que penaliza duplamente os mais vulneráveis: aqueles que, por terem pior saúde, mais necessitam do sistema, são precisamente os que encontram mais barreiras para o aceder. A digitalização, nestes casos, em vez de uma ponte, torna-se um muro. A generalização da prescrição eletrónica é, de facto, uma das histórias de sucesso mais visíveis. A agilização do processo de levantamento de medicamentos nas farmácias representa um ganho claro em conveniência e redução de erros de transcrição. No entanto, esta conquista revela a sua fragilidade quando observada com mais atenção. A sua utilidade plena fica severamente comprometida quando o farmacêutico, no momento de dispensar um medicamento, não tem acesso ao historial completo de alergias do doente ou a outras medicações em curso. Isto transforma um ato clínico seguro num ato de potencial risco, pois a falta de informação holística impede uma visão integrada do doente.
Este problema pontual é, na verdade, o sintoma do calcanhar de Aquiles de toda a transição digital portuguesa: a interoperabilidade. A partilha de informação clínica entre instituições de saúde – entre hospitais e centros de saúde, entre o público e o privado, entre o Norte e o Sul do país – continua a ser um obstáculo maior à continuidade de cuidados. Um relatório de uma TAC realizada num hospital no Norte do país não é, regra geral, automaticamente acessível ao médico de família do doente no Sul. Esta realidade de silos de informação obriga à repetição desnecessária de exames, onerando o sistema e, mais grave, expondo os doentes a radiações evitáveis e atrasando diagnósticos cruciais. Compromete, em última análise, a segurança do doente e a qualidade da prática clínica, que fica cega de um olho.
Quando comparado com casos de estudo internacionais, como o da Estónia – um país frequentemente citado como a Meca da e-saúde –, a defasagem portuguesa torna-se mais evidente. Na Estónia, o registo clínico eletrónico do cidadão é único, unificado e acessível de forma segura a todos os profissionais de saúde autorizados, independentemente do local onde o cidadão seja tratado. O utente é o verdadeiro dono dos seus dados, e o sistema gira em torno dessa centralidade. Em Portugal, pelo contrário, parece estar a remar contra a maré de uma burocracia intrincada e de uma miríade de sistemas tecnologicamente incompatíveis, muitos deles legados de concursos públicos desencontrados ao longo de décadas.
O programa de implementação do Registo de Saúde Eletrónico (RSE), que teoricamente viria colmatar esta lacuna, avança a passo de tartaruga, sufocado por um trilema de desafios: financiamento insuficiente e intermitente, questões complexas de privacidade e segurança de dados (o RGVe trouxe exigências adicionais, mas necessárias), e uma certa resistência cultural de alguns profissionais e instituições em partilhar informação, seja por receio, seja por questões de ‘propriedade’ do doente. Um especialista em informática médica da Universidade do Porto é perentório ao diagnosticar o problema: “Sem uma arquitetura de dados comum e segura, continuaremos a ter um sistema de saúde do século XXI a funcionar com ferramentas e mentalidades do século XX”.
Este lastro de dados desestruturados e incompletos tem um outro custo de oportunidade colossal: impede o aproveitamento do potencial transformador da inteligência artificial (IA) e da análise de big data. A IA poderia ser instrumental no auxílio ao diagnóstico precoce de doenças como o cancro ou a diabetes, na predição de surtos epidemiológicos ou na gestão personalizada de doenças crónicas. Contudo, estes algoritmos sofisticados precisam de ‘alimentar-se’ de grandes volumes de dados estruturados, limpos e interoperáveis para aprender e produzir resultados fiáveis. Na sua ausência, o potencial da IA para revolucionar os cuidados de saúde em Portugal permanecerá letra morta.
Em conclusão, a digitalização não é um fim em si mesma, mas sim um meio poderoso para melhorar a qualidade, a acessibilidade e a sustentabilidade dos cuidados de saúde. Em Portugal, o percurso está a ser feito, mas de forma tão irregular e assimétrica que ameaça aprofundar, em vez de colmatar, as desigualdades no sistema. O desafio que se coloca às autoridades de saúde vai muito além de instalar mais software ou comprar mais hardware. Exige uma visão estratégica integradora, um investimento robusto e continuado em interoperabilidade, uma campanha massiva de literacia digital para a população e uma mudança cultural profunda entre todos os stakeholders. Só assim a revolução digital poderá cumprir a sua promessa de um Serviço Nacional de Saúde mais justo, eficiente e, acima de tudo, universal.
Fonte: OCDE (2025), Health at a Glance 2025: OECD Indicators, OECD Publishing, Paris. https://doi.org/10.1787/8f9e3f98-en
NR/OCDE/HN



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