Disparidades de género na saúde: Homens morrem mais cedo, mulheres vivem mais anos doentes

10 de Dezembro 2025

Em Portugal, como no resto da OCDE, os homens vivem em média menos 5,8 anos do que as mulheres, mas o paradoxo de género revela-se nos detalhes: elas passam uma proporção significativamente maior da sua vida em pior estado de saúde. Esta dupla realidade, com os homens a morrerem mais cedo de causas externas e doenças cardiovasculares e as mulheres a carregarem um fardo pesado de doenças crónicas e incapacitantes, desafia os sistemas de saúde a desenvolverem respostas mais direcionadas

A longevidade em Portugal, quando desagregada por género, desenha um retrato de contrastes profundos que vai muito além dos meros números da esperança de vida à nascença. O fosso de 5,8 anos a favor das mulheres, um valor que se alinha com a média da OCDE, esconde realidades de saúde radicalmente diferentes e um paradoxo perturbador: os homens morrem mais cedo, mas as mulheres vivem mais anos doentes. Esta assinatura epidemiológica do género, consistente em toda a Europa, exige uma leitura atenta dos estilos de vida, dos comportamentos e, fundamentalmente, da forma como os sistemas de saúde se organizam para responder a necessidades distintas.

Para os homens portugueses, a trajectória de saúde é frequentemente truncada por aquilo que os especialistas classificam como “causas de morte prematura e evitável”. Uma conjugação perigosa de fatores comportamentais explica em grande parte esta desvantagem. O tabagismo, ainda mais prevalente historicamente na população masculina, deixou um rasto de doenças oncológicas e cardiovasculares. A uma maior propensão para o consumo de álcool e para dietas menos equilibradas, junta-se uma relutância culturalmente enraizada em procurar cuidados de saúde de forma preventiva. “Há uma ideia tóxica de que cuidar da saúde é sinal de fraqueza, o que leva a que os homens cheguem à consulta com doenças já avançadas”, observa um clínico de medicina geral numa cidade do interior. Esta aversão ao sistema prolonga o tempo entre os primeiros sintomas e o diagnóstico, diminuindo drasticamente as hipóteses de sucesso terapêutico.

Os dados são elucidativos: as doenças cardiovasculares manifestam-se mais cedo e de forma mais agressiva nos homens. Os acidentes de viação e os de trabalho continuam a vitimizar maioritariamente a população masculina. E num silêncio ensurdecedor, as taxas de suicídio mantêm-se significativamente superiores nos homens, um indicador trágico de sofrimento psicológico não endereçado e de barreiras no acesso à saúde mental. A socialização masculina, que desencoraja a expressão de vulnerabilidade, atua aqui como uma armadilha mortal.

Do outro lado do espectro, as mulheres portuguesas alcançam idades mais avançadas, mas essa longevidade é conquistada a um preço elevado em termos de qualidade de vida. Elas utilizam mais os serviços de saúde ao longo da vida, não por hipocondria, mas porque são diagnosticadas com uma frequência muito maior com doenças crónicas não fatais, porém profundamente debilitantes. Condições como artrites reumatoides, fibromialgia, enxaquecas, problemas de tiróide e osteoporose afetam desproporcionadamente a população feminina. A dor crónica torna-se, para muitas, uma companheira constante nos seus anos extras de vida.

A saúde mental apresenta outro quadro de disparidade. As mulheres são diagnosticadas com mais ansiedade e depressão, patologias que, embora não encurtem a vida de forma direta, roubam o seu bem-estar e funcionalidade. “Vivemos mais, mas será que vivemos melhor? Muitas das minhas doentes chegam à terceira idade com um cocktail de medicação para a dor, para a ansiedade e para a pressão arterial. É uma sobrevivência, não uma vida plena”, questiona uma médica de família em Lisboa.

Este duplo fardo de género – a mortalidade precoce dos homens e a morbilidade prolongada das mulheres – evidencia uma falha de desenho nos sistemas de saúde, que permanecem maioritariamente genéricos. As campanhas de saúde pública, por exemplo, raramente são concebidas com uma linguagem e canais que ressoem eficazmente com a população masculina. “Precisamos de falar com os homens onde eles estão, nos locais de trabalho, nos cafés, nos eventos desportivos, e com mensagens que eles percebam como relevantes”, defende um técnico de saúde pública.

Para as mulheres, o desafio é diferente. Impõe-se uma maior atenção e investimento na investigação de síndromes complexos que as afetam predominantemente, condições que por vezes são minimizadas ou atribuídas a fatores psicológicos. Melhorar o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento de doenças como a endometriose ou a síndrome do ovário policístico, que causam sofrimento prolongado a milhões, é um imperativo de equidade.

A solução, portanto, não passa por desviar recursos de um género para o outro, mas por adotar uma abordagem inteligente e sensível às diferenças. Polticas de saúde pública segmentadas, que combatam a resistência masculina aos cuidados preventivos e que aprofundem a compreensão sobre as doenças crónicas que afligem as mulheres, são um caminho inevitável. O objetivo final deve ser ambicioso: não apenas adicionar anos à vida, mas garantir que se adiciona vida a todos os anos, independentemente do género.

Acesso ao documento: https://doi.org/10.1787/8f9e3f98-en

OCDE/HN/MMM

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