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Ana Escoval
A conferência “Saúde que Conta 2025”, organizada pela Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa com o apoio da Lilly Portugal, trouxe a debate um dos maiores desafios de saúde pública no país: a obesidade. Perante uma plateia de profissionais, académicos e decisores, a investigadora Ana Rita Pedro, coordenadora científica do estudo, apresentou os resultados da nona fase desta investigação longitudinal, que completa 14 anos. Os dados, baseados num inquérito online a 3333 adultos portugueses, pintam um retrato preocupante, mas também revelam caminhos para a ação.
De acordo com o estudo, 35,5% da amostra tem critérios clínicos para obesidade, com base no Índice de Massa Corporal. No entanto, apenas 20,4% dos inquiridos autorreporta ter a doença. Esta discrepância entre a realidade clínica e a perceção individual foi um dos pontos mais destacados. “Há um hiato de perceção que nos interpela a todos”, referiu-se durante a sessão. Um dos exercícios realizados com os participantes, e replicado na audiência, veio confirmar esta dissonância. Ao serem confrontados com imagens progressivas de corpos masculinos e femininos e questionados sobre a partir de que ponto identificavam obesidade, os participantes tenderam a considerar que a obesidade no corpo feminino surgia num estádio anterior ao do masculino, apesar das imagens correspondentes serem idênticas. Este dado levantou questões sobre um possível viés de género inconsciente e uma maior pressão social e crítica sobre a imagem corporal da mulher.
O conhecimento sobre a doença também se mostrou insuficiente. Embora 90,7% dos inquiridos reconheça que a obesidade é uma doença crónica que requer tratamento, apenas 47,5% soube identificar corretamente que um IMC igual ou superior a 30 constitui o critério de diagnóstico. Entre as pessoas com obesidad

Ana Rita Pedro
e, cerca de metade desconhece este ponto de corte. O nível de literacia em saúde global da população apresenta uma evolução positiva na última década, com uma redução de cerca de 17 pontos percentuais no número de portugueses com níveis negativos. Contudo, quase 11% da amostra ainda apresenta um nível problemático, e o quadro agrava-se entre as pessoas com obesidade: 54,1% têm níveis negativos de literacia em saúde, contra 39,9% das pessoas sem obesidade.
“A obesidade é uma condição multifatorial, influenciada por genética, comportamento e ambiente. A literacia em saúde pode ter um papel preponderante na sua prevenção e gestão, precisamente porque capacita as pessoas para tomarem decisões informadas no seu dia a dia”, explicou Ana Rita Pedro. A investigadora sublinhou que a literacia em saúde não se esgota no acesso à informação, incluindo também a capacidade de a compreender, avaliar e utilizar.
O estigma social associado ao peso revelou-se uma barreira profunda. Numa escala de 0 a 10, os participantes consideraram existir um nível de discriminação contra a pessoa com obesidade de 7,39. Quando questionados sobre a probabilidade de ter um encontro amoroso com uma pessoa com obesidade, a pontuação média caiu para 5,49 entre os inquiridos sem obesidade. Este valor, ainda que mais alto, permanece baixo (7,08) mesmo quando respondido por pessoas com obesidade, refletindo a internalização do estigma.

António Oliveira
Após a apresentação dos dados, seguiu-se um painel de debate moderado por João Moleira, que juntou diversas perspetivas sobre o problema. Carlos Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Pessoas com Obesidade (ADEXO), partilhou a experiência das três fases que muitas pessoas vivem: uma inicial de negação, uma “fase da loucura” de procura por soluções milagrosas e, finalmente, o pedido de ajuda profissional, muitas vezes tardio. “O estigma continua a prevalecer. A pessoa tem medo de ir ao médico para não se sentir estigmatizada”, afirmou, defendendo a necessidade de os profissionais de saúde estarem mais bem preparados e de existirem tratamentos acessíveis.
O médico de saúde pública Daniel Resende alertou para um possível viés nos resultados, dado o elevado nível educacional da amostra (maioritariamente com ensino superior), que não reflete a realidade socioeconómica da população mais vulnerável, onde a obesidade é mais prevalente. “Preocupam-me mais as pessoas que não foram captadas por este estudo”, disse, apontando para a falta de escolhas alimentares saudáveis em contextos de pobreza e para a necessidade de políticas públicas que atuem sobre o ambiente alimentar, como a regulação do marketing e a rotulagem clara.

José Silva Nunes
José Silva Nunes, da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, focou-se na narrativa histórica que tem desvalorizado a obesidade. “Fomos pioneiros em reconhecê-la como doença há 21 anos, mas somos muito bons a pôr coisas no papel e não tão bons a pô-las em prática”. Sublinhou que muitos profissionais de saúde ainda não a reconhecem como doença, tratando-a como uma falha de carácter do doente, o que compromete qualquer abordagem terapêutica.

Nuno Jacinto (APMGF)
Nuno Jacinto, da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, concordou com a falta de ferramentas e condições no serviço nacional de saúde para uma abordagem eficaz. “Temos que tornar isto uma prioridade”, defendeu, referindo a necessidade de tempo, recursos multidisciplinares e acompanhamento a longo prazo, para além do simples cálculo do IMC.

Maria Alves (DGS)
Maria Alves, psicóloga da Direção-Geral da Saúde, focou a resposta no presente e futuro, mencionando a criação da Rede Nacional de Literacia em Saúde como uma ferramenta para capacitar profissionais e promover estilos de vida saudáveis, combatendo as lacunas identificadas.
A acessibilidade aos tratamentos emergiu como um dos pontos mais críticos. Nuno Jacinto, médico de família no Alentejo, ilustrou a desconexão entre as diretrizes nacionais e a realidade dos cuidados primários fora dos grandes centros urbanos. Criticou a proposta que restringe a prescrição de medicamentos eficazes para a obesidade a equipas hospitalares ou multidisciplinares especializadas, muitas vezes inexistentes ou inacessíveis em vastas regiões do país. “Dizermos que estes doentes são para ser medicados no hospital é a mesma coisa que dizermos que não vão conseguir chegar lá, ou vão chegar lá daqui a dois anos”, afirmou, defendendo que confiar nos médicos de família é crucial. Carlos Oliveira, da ADEXO, reforçou esta ideia, sublinhando a ironia de um médico poder prescrever certos fármacos a diabéticos, mas não a doentes com obesidade, e alertou para o custo proibitivo das novas terapêuticas para muitas famílias.
A conversa desviou-se então para as causas ambientais e sociais da doença. Daniel Resende, da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, foi incisivo ao defender que a intervenção não pode focar-se apenas no tratamento individual, ignorando o “ambiente obesogénico” que condiciona as escolhas. “Temos que perceber quais são os determinantes sociais e ambientais nos quais as pessoas vivem (…) antes de começar a pensar no tratamento”, argumentou. Apontou a pobreza, o marketing agressivo de alimentos ultraprocessados, a falta de rotulagem clara e a menor acessibilidade económica a alimentos saudáveis como fatores-chave que tornam a obesidade uma questão de desigualdade. Citou como exemplo positivo a taxação das bebidas açucaradas, que já reduziu em 20% o teor de açúcar nestes produtos, defendendo políticas semelhantes às aplicadas ao tabaco.
Sobre o papel da literacia em saúde, José Silva Nunes defendeu duas frentes prioritárias: a formação dos profissionais de saúde, desde a faculdade, e a introdução da literacia em saúde como disciplina ou conteúdo obrigatório nas escolas, desde o ensino primário. “Queremos mudar a sociedade, pondo a culpa nos pais ou nos amigos? Temos que começar onde é essencial”, afirmou. Carlos Oliveira abordou a dificuldade que os doentes enfrentam ao procurar informação credível, entre o “Doutor Google” e as redes sociais, e destacou o papel das associações de doentes, como a plataforma woop.pt, em guiar as pessoas para fontes fiáveis. Partilhou ainda um episódio revelador: ao ir a uma escola falar de alimentação saudável, percebeu que a maioria das crianças da turma só fazia uma refeição quente por dia, na escola. “Como é que se fala de alimentação saudável com estas crianças?”, questionou, realçando que problemas sociais profundos precedem qualquer conversa sobre escolhas alimentares.
A necessidade de uma comunicação social e de figuras públicas mais responsáveis foi outro tema consensual. Enquanto Maria Alves, da DGS, notou uma evolução positiva nas redes sociais, onde gozar com a obesidade se tornou socialmente mais condenável, José Silva Nunes foi mais cético. Criticou abertamente a forma como alguns meios de comunicação ainda retratam a doença, dando como exemplo o artigo de “fundo de um jornal com ampla distribuição que associou a obesidade a hambúrgueres de forma caricatural. “O que está subjacente é precisamente o contrário [do que se diz]. É que é culpa do indivíduo”, lamentou. Carlos Oliveira detalhou as três dimensões do estigma: visual, social e o da “tribo” (família e amigos), que continuam a isolar e a prejudicar a saúde mental das pessoas.
Questionado sobre como combater as desigualdades, Daniel Resende foi perentório: é preciso ir além da literacia e adotar políticas públicas corajosas. Apontou o exemplo do Chile e da Argentina, pioneiros na implementação de rótulos de advertência fortes (como os “discos negros”) para produtos ultra processados e na restrição do marketing dirigido a crianças. Atrasos em Portugal, na sua opinião, devem-se ao “lobby muito forte” da indústria alimentar. Defendeu a regulamentação do marketing, a taxação de produtos nocivos e a adoção de sistemas de rotulagem como o NOVA, que classifica os alimentos pelo grau de processamento.
A pergunta sobre o modelo ideal de colaboração entre os vários setores levou a uma crítica franca à falta de articulação nacional. José Silva Nunes usou como exemplo o facto de Portugal ser um dos quatro países “front runners” europeus no combate à obesidade, uma informação que, na sua experiência, nem todas as sociedades científicas do setor conhecem. “Vivemos muito em quintas e cada quinta acha que trata muito bem da sua horta (…). O problema é mesmo falta de comunicação entre as várias estruturas”, concluiu, apelando a um trabalho verdadeiramente transdisciplinar que una academia, associações, profissionais, governo, setor privado e comunicação social.
Nuno Jacinto, da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, reforçou a crítica à forma como as políticas de saúde são desenhadas, muitas vezes sem ouvir quem está no terreno. “Quando nós fazemos este percurso de cuidados integrados e temos alguém que decide o que os cuidados de saúde primários podem e não podem fazer sem os ouvir, vamos ter um mau resultado”, afirmou. Defendeu que o papel das associações profissionais, como a sua, é capacitar os médicos e produzir informação credível, mas que para isso precisam de ser incluídos na construção das soluções. Caso contrário, “vamos ter um documento bonito que não é exequível na prática”.
Maria Alves, da Direção-Geral da Saúde (DGS), reconheceu este desafio e garantiu que a estratégia em construção pretende ser diferente. “O objetivo é mesmo contactar com várias ULS de todas as regiões do país, tentar perceber as lacunas e as necessidades de cada região”, explicou. Sublinhou que a equipa central em Lisboa não pode ignorar as realidades locais, como a do Alentejo ou do Norte, e que o sucesso depende de um trabalho verdadeiramente multidisciplinar que una todas as “pequenas hortas”.
Num momento de destaque, o moderador João Moleira lançou um desafio a Carlos Oliveira, da ADEXO: que mensagem urgente dirigiria à Ministra da Saúde? A resposta focou-se numa lógica económica inadiável. Oliveira referiu que, enquanto o Estado gasta mais de mil milhões de euros anuais a tratar doenças associadas à obesidade (como diabetes e certos cancros), o investimento direto no tratamento da obesidade é insignificante. “Sabendo-se que um euro investido no tratamento da obesidade tem um retorno para o Estado de seis euros, a Senhora Ministra tem é que aprender gestão”, afirmou, defendendo uma reorientação racional dos recursos. Alertou ainda para o estigma que persiste até na farmácia, onde uma pessoa com obesidade a levantar medicamentos para a diabetes pode ser alvo de julgamento, ignorando-se que 80% dos diabéticos tipo 2 em Portugal têm obesidade.
Para além da necessidade de investimento, Oliveira argumentou que as políticas fiscais devem ser de dois sentidos: “Não é só sacar dinheiro (…) agravando aqueles produtos. Há também que aliviar os outros que são efetivamente saudáveis”. Exemplificou com o preço proibitivo de uma simples alface, sublinhando que muitas pessoas com obesidade enfrentam também precariedade económica e desemprego, agravando o ciclo da doença.
A última parte do painel da conferência “Saúde que Conta 2025” lançou o olhar sobre o futuro, com o moderador João Moleiro a questionar os especialistas sobre onde Portugal estará daqui a 20 anos no combate à obesidade. As respostas misturaram esperança, ceticismo e um apelo urgente a uma visão estratégica de longo prazo que transcenda ciclos políticos.
Carlos Oliveira (ADEXO) mostrou-se esperançoso, lembrando que Portugal foi, antes da pandemia, um caso de estudo na Europa ao reduzir por três anos consecutivos a obesidade infantil, graças a programas como os “Heróis da Fruta” da APCOI. “A minha Esperança é que realmente evolua, que os decisores do nosso país percebam que têm que funcionar a 10, 20 ou 30 anos. Isso é que é gestão”, afirmou. Salientou ainda os avanços terapêuticos, desde as mais de 80 mil cirurgias realizadas até ao potencial dos novos fármacos para evitar a progressão da doença.

Daniel Resende, segundo a contar da esquerda
Uma visão mais pessimista foi apresentada por Daniel Resende (Médico de Saúde Pública), que alertou para o agravamento das desigualdades sociais como o principal obstáculo. “Se não resolvermos as causas das causas (…) podemos ter uma melhor abordagem, mas as pessoas voltam a um ambiente obesogénico”. Defendeu que a literacia não é suficiente se as “escolhas default” não forem as saudáveis, exigindo políticas de “stick and carrot” – taxar o nocivo e apoiar o saudável, como o acesso a ginásios ou alimentos frescos.
José Silva Nunes (Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade) referiu que o futuro dependerá muito da evolução económica do país. De forma pragmática, afirmou que “se descobrirmos petróleo em Aljubarrota, provavelmente conseguiremos combater a obesidade”, pela via do financiamento. Contudo, vê com esperança a inovação farmacológica e o recente reconhecimento da Organização Mundial de Saúde sobre a utilidade destes medicamentos.
Nuno Jacinto (Medicina Geral e Familiar) acredita que não se vai recuar, mas que Portugal poderá não aproveitar todo o potencial disponível. “Temos que olhar para esta problemática como algo transversal à sociedade”, defendeu, sublinhando que um programa da DGS deve chegar aos Ministérios da Educação, das Finanças e da Segurança Social para ser eficaz. Maria Alves (DGS) partilhou uma visão cautelosamente positiva, afirmando que é um caminho longo, mas que existem “boas ideias, bons projetos e boas políticas públicas” em construção.
O debate alargou-se então ao público. Uma investigadora brasileira em doutoramento partilhou a sua experiência, destacando que no Brasil, apesar da maior prevalência, existe uma colaboração estruturada entre universidades e o Ministério da Saúde para formação obrigatória de profissionais e criação de diretrizes. José Silva Nunes confirmou que em Portugal “o Estado há muito que se demitiu do papel de fazer formação contínua”, deixando-a a cargo da motivação individual dos profissionais.
Um jornalista na assistência questionou a alocação de recursos, citando os mais de 1560 milhões de euros de receita com impostos sobre o tabaco no Orçamento de 2025, sugerindo que estas verbas poderiam ser mais bem canalizadas para a prevenção.
A representante da Ordem dos Farmacêuticos salientou o papel crucial das farmácias na proximidade com as comunidades e na promoção do diagnóstico precoce, alertando também para a necessidade de os doentes não verem a medicação como única solução, negligenciando o exercício físico. José Silva Nunes respondeu que não há falta de stock de fármacos aprovados para a obesidade, mas sim de acesso, e defendeu maior formação para que os farmacêuticos possam orientar adequadamente os utentes.
Por fim, uma participante do Fórum Saúde 21 questionou que ações específicas e coordenadas existem para a camada jovem. Maria Alves referiu o programa de saúde escolar da DGS e campanhas nas redes sociais. Carlos Oliveira acrescentou que associações como a APCOI e a ADEXO têm campanhas ativas nas escolas, como a distribuição do livro “Esconderijo” contra o bullying, mas que o Estado precisa de complementar e amplificar estes esforços.
O moderador, João Moleiro, encerrou assim a sessão interpelando uma audiência que se mostrou interventiva e preocupada com a materialização das ideias discutidas. A conclusão que pairou no ar foi a de que o futuro será determinado pela capacidade de passar das “boas intenções” para “boas ações” – concretas, financiadas e avaliadas a longo prazo.



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