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A transição digital, apresentada como um vector incontornável de modernização e eficiência, está a reconfigurar profundamente o sistema de saúde português. No entanto, esta evolução, longe de ser um mero upgrade tecnológico, está a revelar-se um potente factor de exclusão, criando um novo e preocupante fosso geracional. De acordo com o relatório “Health in a Glance 2025” da OCDE, e com dados nacionais que o corroboram, estima-se que 38% dos portugueses com mais de 65 anos não conseguem utilizar as plataformas digitais de saúde. Este número, mais do que uma estatística, traduz-se em rostos, histórias e barreiras tangíveis no acesso a um direito fundamental: o cuidado da saúde.
A aceleração forçada pela pandemia de COVID-19 funcionou como um revelador cru desta fratura social. Onde se prometia conveniência e segurança, muitos cidadãos, particularmente os mais velhos, encontraram um muro de incompreensão tecnológica. O testemunho de uma assistente social em Castelo Branco é elucidativo e representa uma realidade nacional: “Muitos idosos chegam às consultas sem a teleconsulta marcada porque não conseguiram usar a aplicação”. Esta situação vai além de um simples incómodo logístico; é o sintoma de uma desconexão profunda entre a velocidade da inovação e a capacidade de uma parte significativa da população para a acompanhar. Estes idosos, que durante décadas acederam aos cuidados de saúde através de métodos tradicionais (a marcação presencial ou telefónica, a consulta face-a-face), veem-se agora subitamente desprovidos de autonomia, dependentes da boa vontade de familiares, vizinhos ou de profissionais sobrecarregados para realizar tarefas que se tornaram básicas, como marcar uma simples consulta.
O contraste com países que encararam a transição digital de forma mais holística é gritante. Tome-se o exemplo da Estónia, frequentemente citada como um caso de estudo de sucesso. Para além de investir maciçamente em infraestruturas, o país báltico implementou programas sistemáticos de mentoria digital entre gerações, onde jovens e adultos mais familiarizados com a tecnologia orientam os mais velhos no uso de serviços públicos digitais. Esta abordagem não só resolve o problema prático, como reforça os laços comunitários e combate o isolamento. Em Portugal, a estratégia tem sido, na sua essência, reactiva e fragmentada. A falta de formação adaptada, pensada especificamente para o perfil cognitivo e etário dos utilizadores seniores, é uma lacuna evidente. As sessões de formação, quando existem, são frequentemente genéricas, rápidas e não têm em conta o ritmo de aprendizagem ou as eventuais limitações (como problemas de visão ou audição) deste público.
A este factor junta-se outro, igualmente crítico: o design pouco intuitivo das plataformas. Aplicações como o SNS 24 ou os portais de agendamento foram, por vezes, desenvolvidas com um utilizador “tipo” – jovem, urbano e digitalmente literato – em mente. Navegações complexas, linguagem técnica, menus sobrecarregados e a ausência de funcionalidades de acessibilidade (como o aumento de texto ou leitores de ecrã) transformam uma experiência que deveria ser simples numa fonte de frustração e ansiedade. Um estudo da Universidade de Coimbra vem quantificar este drama: apenas 29% dos portugueses com baixa escolaridade consegue navegar autonomamente no portal do SNS 24. Este dado é crucial, pois demonstra que o problema não é apenas geracional; é também socioeconómico. A baixa escolaridade e a literacia digital estão intrinsecamente ligadas, criando uma dupla penalização para os cidadãos mais vulneráveis.
As consequências desta exclusão digital em saúde são profundas e multifacetadas, indo muito além do mero acesso a uma consulta. São elos de uma cadeia de desvantagem que se perpetua. Dificuldades em marcar exames complementares de diagnóstico podem significar atrasos perigosos no diagnóstico de doenças graves. A incapacidade de aceder a resultados de análises ou biopsias online gera um estado de incerteza e angústia prolongado. A simples renovação de uma receita médica, outrora um acto trivial na secretaria de um centro de saúde, transforma-se num obstáculo intransponível, podendo levar à interrupção de tratamentos crónicos, com implicações sérias para a saúde do doente. Neste cenário, a inovação tecnológica, que em teoria deveria democratizar o acesso e empoderar os cidadãos, corre o risco perverso de se tornar um novo factor de marginalização, afastando precisamente aqueles que mais necessitam do sistema de saúde.
Perante este quadro, a solução não passa por travar a digitalização, mas sim por humanizá-la e torná-la verdadeiramente inclusiva. Especialistas em inclusão digital e organizações da sociedade civil defendem um conjunto de medidas urgentes e complementares. Em primeiro lugar, é imperativa a criação de uma rede de pontos de apoio presencial, localizados em centros de saúde, juntas de freguesia, bibliotecas ou associações locais. Estes espaços, dotados de técnicos com paciência e competência pedagógica, poderiam guiar os utilizadores passo a passo nos processos digitais, restaurando a sua autonomia e confiança. Em segundo lugar, é fundamental um redesenho radical das interfaces digitais, adoptando princípios de “design for all” (desenho para todos). Isto implica interfaces simplificadas, com ícones grandes e claros, linguagem simples e direta, e a integração de ferramentas de acessibilidade. A opção de uma “via verde” para utentes seniores ou com menos habilitações deveria ser uma prioridade.
Finalmente, e à semelhança do que foi feito na Estónia, é crucial o lançamento de campanhas nacionais de capacitação digital, que mobilizem toda a sociedade – desde escolas e universidades até a empresas e instituições de solidariedade social – num esforço colectivo para “não deixar ninguém para trás”. A tecnologia deve ser uma ponte, não um fosso. O relatório da OCDE serve como um alerta claro: o sucesso da transformação digital do sistema de saúde português não se medirá pelo número de aplicações lançadas, mas pela sua capacidade de servir de forma equitativa todos os cidadãos, independentemente da sua idade, escolaridade ou condição social. Sem um compromisso firme com a inclusão, a revolução digital em curso arrisca-se a cavar ainda mais fundo as desigualdades que, em teoria, se propunha a eliminar.
Fonte: OCDE (2025), Health at a Glance 2025: OECD Indicators, OECD Publishing, Paris. https://doi.org/10.1787/8f9e3f98-en
NR/OCDE/HN



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