Prevenção em Contraciclo: Os Dois Rostos da Qualidade da Saúde em Portugal

10 de Dezembro 2025

O relatório "Health in a Glance 2025" da OCDE revela um sistema de saúde português com contrastes. Enquanto a adesão ao rastreio do cancro da mama, com 55,5%, fica aquém da média da OCDE, a prescrição de antibióticos mantém-se elevada, sublinhando desafios antigos na prevenção de doenças e no uso prudente de medicamentos

A qualidade dos cuidados de saúde em Portugal exibe contrastes acentuados, com desempenhos divergentes em indicadores fundamentais. De acordo com o mais recente relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), “Health at a Glance 2025”, o país é confrontado com um duplo desafio: uma adesão moderada a um pilar essencial da medicina preventiva – o rastreio oncológico – e a persistência de um padrão de prescrição de antibióticos que continua a levantar sérias preocupações. Estes dois vetores desenham um mapa de prioridades urgentes para a sustentabilidade e eficácia do sistema nacional de saúde.

No capítulo da prevenção do cancro, os dados revelam um caminho de progresso, mas ainda insuficiente. A adesão ao rastreio do cancro da mama situa-se nos 55,5% para mulheres entre os 50 e os 69 anos. Este valor, ainda que represente uma melhoria face a anos anteriores, permanece significativamente abaixo da média dos países da OCDE (que ronda os 60%) e a uma luz distante de nações como a Dinamarca ou a Suécia, onde a participação ronda os 80%. Esta lacuna não é um mero número estatístico; traduz-se em diagnósticos mais tardios, tratamentos mais agressivos e, potencialmente, em piores prognósticos para um número considerável de mulheres. Especialistas apontam para a necessidade de melhorar a logística dos convites, a cobertura nacional e a confiança da população nos programas de rastreio como fatores decisivos para aumentar a participação. Barreiras geográficas, constrangimentos de tempo e lacunas na literacia em saúde são também obstáculos a superar através de campanhas de sensibilização mais direcionadas e de uma maior aproximação dos serviços às comunidades.

Em paralelo, o mesmo diagnóstico da OCDE revela um padrão de prescrição de antibióticos em cuidados primários que continua a suscitar apreensão. Os médicos de família portugueses prescrevem, em média, 18 doses diárias definidas (DDD) por cada mil habitantes. Trata-se de um valor claramente elevado quando comparado com a média da OCDE e com os 10 DDD registados em países como a Alemanha ou os Países Baixos. Este consumo excessivo, mesmo registando uma ligeira tendência de queda nos últimos tempos, é identificado como um dos principais combustíveis para a resistência antimicrobiana (RAM), um problema de saúde pública global que ameaça tornar infeções comuns intratáveis e procedimentos médicos de rotina, como cirurgias ou quimioterapia, em intervenções de alto risco.

Superar este hábito profundamente enraizado na prática clínica e nas expetativas dos utentes, que muitas vezes pressionam por soluções farmacológicas rápidas para patologias de etiologia maioritariamente viral, constitui um dos desafios mais complexos para as autoridades de saúde. Combater a RAM exige uma estratégia multifacetada que inclui a formação contínua dos profissionais de saúde, a implementação de guias clínicos mais restritivos e, crucialmente, campanhas de comunicação pública que expliquem os riscos da automedicação e da utilização inadequada de antibióticos. A justaposição destes dois indicadores – a moderada adesão a uma medida preventiva crucial e a persistência de uma prática prescritiva de risco – ilustra como a qualidade de um sistema de saúde se constrói numa miríade de pormenores operacionais e culturais.

São as escolhas do dia a dia, tanto de profissionais como de cidadãos, que no seu conjunto determinam a eficácia e a resiliência da resposta sanitária. O caminho a percorrer, sugerem as conclusões do relatório, passará inevitavelmente por um investimento continuado e inteligente na educação de todos os intervenientes. Por um lado, é preciso empoderar os cidadãos para que se envolvam ativamente na sua saúde, participando nos rastreios. Por outro, é essencial consolidar uma cultura clínica que privilegie a prescrição baseada na evidência e a gestão prudente de antimicrobianos. Estes dois pilares – prevenção proativa e terapêutica responsável – são faces da mesma moeda: a de um sistema de saúde que aspira não só a tratar a doença, mas, sobretudo, a promover a saúde de forma sustentável.

Acesso ao documento: https://doi.org/10.1787/8f9e3f98-en

NR/OCDE/MMM

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