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A esperança de vida nos países da OCDE recuperou para 81,1 anos em 2023, mas esta melhoria média esconde profundas disparidades, não só entre homens e mulheres, mas também entre grupos socioeconómicos. A conclusão é dupla e surge cruzada no relatório Health at a Glance 2025, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), e no estudo “Desigualdades Sociais na Saúde na UE”, elaborado pela EuroHealthNet em colaboração com o Centro de Análise da Equidade em Saúde (CHAIN).
O relatório da OCDE confirma que as mulheres continuam a viver mais do que os homens – em média, mais 5,2 anos. No entanto, esta vantagem na longevidade mascara uma realidade mais complexa: as mulheres vivem mais anos com limitações físicas e problemas de saúde crónicos. Aos 60 anos, as mulheres podem esperar viver mais 3,4 anos do que os homens, mas passarão mais 1,3/ano com limitações de atividade.
Esta “desvantagem feminina na qualidade de vida” é agravada por um determinante social crítico, detalhado no relatório da EuroHealthNet: o nível socioeconómico. De acordo com o relatório “Desigualdades Sociais na Saúde na UE”, as pessoas com menores rendimentos e níveis de escolaridade não só relatam pior estado de saúde, como enfrentam barreiras de acesso aos cuidados. Esta dupla carga de desigualdade – de género e socioeconómica – cria um círculo vicioso de desvantagem para os grupos mais vulneráveis.
Doenças diferentes, desvantagens sobrepostas
Os dois documentos revelam como as causas de morte e doença se distribuem de forma desigual pela população. O relatório da OCDE destaca que, para os homens, as causas externas – como suicídio, acidentes e violência – são o principal fator de anos de vida perdidos, representando 31% do total. Já para as mulheres, o cancro é a principal causa (31%).
O relatório da EuroHealthNet vem complementar esta análise, sublinhando que as doenças evitáveis atingem de forma desproporcional os grupos socioeconómicos mais baixos. As pessoas com menos educação e rendimentos têm uma exposição significativamente maior a fatores de risco como tabagismo, obesidade e ambientes poluídos, o que se reflete em taxas mais elevadas de doenças cardiovasculares, respiratórias e alguns tipos de cancro.
Acesso aos cuidados: uma fronteira socioeconómica
Apesar da maioria dos países da OCDE ter sistemas de cobertura universal, ambos os relatórios confirmam que o acesso efetivo não é equitativo. A OCDE regista que as pessoas no quintil de rendimento mais baixo têm 2,5 vezes mais probabilidade de reportar necessidades de cuidados médicos não satisfeitas do que as do quintil mais alto.
O relatório da EuroHealthNet vai mais longe ao analisar os mecanismos por trás desta desigualdade. O documento aponta para barreiras como os custos diretos (despesas do próprio bolso), os tempos de espera – que afetam mais quem não pode pagar pelo setor privado – e uma literacia em saúde geralmente mais baixa entre populações desfavorecidas, o que dificulta a navegação no sistema.
Conclusão comum: a necessidade de políticas intersectoriais
A mensagem final de ambos os relatórios, é clara: os sistemas de saúde não podem, por si só, resolver estas desigualdades profundas. A OCDE defende uma renovada atenção ao “valor por dinheiro”, com maior investimento em prevenção e cuidados primários.
De forma alinhada, o relatório da EuroHealthNet argumenta que combater as desigualdades em saúde requer políticas públicas coordenadas além do setor da saúde. Medidas nas áreas da educação, proteção social, emprego, habitação e ambiente são fundamentais para criar condições de vida equitativas que, por sua vez, determinam a saúde das populações.
“Combater os fatores de risco ao longo do ciclo de vida é fundamental para ganhos de saúde a longo prazo”, afirma o relatório da OCDE. Já o documento da EuroHealthNet conclui que “reduzir as desigualdades na saúde não é apenas uma obrigação moral, mas uma condição essencial para o desenvolvimento social e económico sustentável da Europa”.
Fontes:
- OECD (2025), Health at a Glance 2025: OECD Indicators, OECD Publishing, Paris.
- EuroHealthNet & CHAIN (2024), “Desigualdades Sociais na Saúde na UE”



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