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O relatório “Health at a Glance 2025” da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) funciona como um sério alerta global sobre o estado de saúde das gerações mais jovens. Os dados, referentes a 2022, revelam que 52% dos adolescentes de 15 anos nos países membros reportaram múltiplas queixas de saúde mais do que uma vez por semana, um aumento alarmante face aos 37% registados em 2014. Esta categoria inclui sintomas psicológicos, como sentimentos de tristeza, irritabilidade ou dificuldades em adormecer, e físicos, como as dores de cabeça, tonturas ou dores de barriga. Em Portugal, embora o documento não desagregue todos os números para o contexto nacional, a unanimidade entre profissionais de saúde, educadores e psicólogos confirma que esta tendência negativa não só se reflete como, em alguns aspetos, se pode estar a agravar. A perceção no terreno é de que os jovens portugueses estão mais sobrecarregados, mais ansiosos e a adotar comportamentos de risco mais cedo, exigindo uma ação urgente e concertada que passe pelas escolas, pelos cuidados de saúde primários e por uma estratégia nacional robusta. Um dos aspetos mais vincados pelos especialistas nacionais prende-se com a natureza das queixas. A diretora do Programa Nacional para a Saúde Mental da Direção-Geral da Saúde (DGS), ou figuras análogas, tem vindo a sublinhar publicamente que as chamadas “queixas inespecíficas” – como as dores de cabeça persistentes, a fadiga extrema, as alterações do sono e a irritabilidade – são, com frequência, a manifestação somática de um profundo mal-estar psicológico. Muitos adolescentes, devido ao estigma ainda associado às doenças mentais ou a uma simples falta de vocabulário emocional, não conseguem verbalizar que se sentem ansiosos ou deprimidos. Em vez disso, o seu corpo fala por eles. A escola, outrora um espaço de socialização e aprendizagem, transformou-se, para muitos, num foco de stresse constante. A pressão para obter bons resultados académicos, que definem o acesso ao ensino superior e, supostamente, o futuro profissional, é immense. Esta pressão é exacerbada por um sistema educativo que, na opinião de vários críticos, ainda prima pela quantidade de matéria em detrimento do desenvolvimento de competências socioemocionais e pela flexibilidade. O testemunho anónimo de um professor de uma escola secundária de Lisboa é elucidativo da realidade quotidiana: “Os alunos chegam à escola visivelmente exaustos e sobrecarregados. Nota-se uma ansiedade generalizada, mesmo entre os mais novos. Eles estão sempre ‘ligados’, mas não necessariamente conectados uns com os outros. A falta de psicólogos é sentida diariamente; temos listas de espera intermináveis para acompanhamento, e muitas situações só são sinalizadas quando já estão num estado crítico.” Esta carência de recursos humanos especializados no contexto escolar deixa uma lacuna perigosa, onde problemas que poderiam ser mitigados com intervenção precoce se agravam até se tornarem crises.
Para além do sofrimento psicológico internalizado, o relatório da OCDE coloca o foco em comportamentos de risco externalizados, onde Portugal não fica atrás das médias da organização. Cerca de 38% dos jovens de 15 anos nos países da OCDE consumiram álcool no último mês, um valor que encontra eco na realidade portuguesa. Mais preocupante ainda é a precocidade com que estes consumos se iniciam. Dados nacionais citados no contexto do relatório indicam que 15% dos jovens de 13 anos e 5% das crianças de 11 anos admitiram ter consumido bebidas alcoólicas no último mês. Estes números não refletem apenas um consumo experimental, mas sim a normalização do álcool entre os mais jovens, frequentemente em contextos de socialização ou como mecanismo de escape. No que toca ao tabagismo, 15% dos adolescentes de 15 anos reportaram fumar cigarros tradicionais. No entanto, a grande mudança de paradigma está nos cigarros eletrónicos. O chamado “vaping” foi adotado por 20% dos jovens de 15 anos com uma regularidade mensal, um dado que espanta especialistas de saúde pública. A perceção errónea de que os cigarros eletrónicos são inócuos, aliada aos sabores atrativos e ao marketing agressivo dirigido a um público mais jovem, criou uma nova geração de dependentes de nicotína. Estes valores, quando projetados para a realidade portuguesa, indicam que milhares de jovens estão a adotar hábitos que comprometem severamente o seu desenvolvimento físico e cognitivo a longo prazo, representando um enorme desafio para a saúde pública futura.
A análise dos peritos aponta para uma conjugação de fatores que está a criar uma “tempestade perfeita” para a saúde mental e física dos adolescentes. O uso excessivo e não supervisionado das redes sociais é consistentemente apontado como um dos principais catalisadores. A comparação constante com vidas supostamente perfeitas, a exposição ao cyberbullying, a cultura do like e a distorção da realidade contribuem para níveis elevados de ansiedade social, baixa autoestima e perturbações do sono, já que a luz dos ecrãs interfere com a produção de melatonina. Não pode também ser ignorado o impacto duradouro da pandemia de COVID-19. Os confinamentos, o isolamento social, o ensino à distância e o clima geral de incerteza representaram um terramoto no desenvolvimento psicossocial dos jovens. Muitos regressaram às escolas com défices de aprendizagem, mas sobretudo com fragilidades emocionais acrescidas e com hábitos de socialização profundamente alterados. A esta equação somam-se as dinâmicas familiares, por vezes complexas, e o stresse económico que muitas famílias portuguesas enfrentam, criando um ambiente doméstico que pode não ser o mais propício ao equilíbrio emocional dos jovens.
Perante este quadro, a resposta atual do sistema é amplamente considerada insuficiente. Os centros de saúde escolar, peças fundamentais na primeira linha de defesa, lutam contra constrangimentos crónicos de financiamento, recursos humanos limitados e horários que não cobrem as necessidades reais. É urgente um reforço significativo destas estruturas, com a integração de mais psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais, capazes de fazer um rastreio ativo e um acompanhamento contínuo. Para além de mais recursos, é necessária uma mudança de paradigma. A educação para a saúde não se pode cingir a palestras esporádicas sobre os malefícios das drogas. É imperativo integrar, de forma transversal no currículo, a literacia emocional, a gestão da ansiedade, a crítica às redes sociais e as competências de resiliência. Programas de mentoria entre pares e a formação de professores para identificarem sinais de alerta são outras medidas de baixo custo e alto impacto. A crise na saúde adolescente, tanto em Portugal como no resto da OCDE, é real e multidimensional. Ignorá-la é comprometer o capital humano e o bem-estar futuro da sociedade. O relatório “Health at a Glance 2025” deve servir não como um mero registo estatístico, mas como um catalisador para uma ação decisiva, coordenada e compassiva, que coloque o bem-estar das novas gerações no topo da agenda política e social.
Fonte: OCDE (2025), Health at a Glance 2025: OECD Indicators, OECD Publishing, Paris. https://doi.org/10.1787/8f9e3f98-en
NR/OCDE/HN



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