Saúde mental dos portugueses revela fraturas, com mulheres e idosos em situação mais vulnerável

10 de Dezembro 2025

Saúde mental dos portugueses revela fraturas, com mulheres e idosos em situação mais vulnerável. Relatório da OCDE mostra que 12,1% da população autoavalia a saúde como má, valor acima da média. Depressão e ansiedade afetam desproporcionalmente os grupos com menor escolaridade

O bem-estar de uma nação não se mede apenas pela esperança média de vida ou pela taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares. A forma como as pessoas percecionam o seu próprio estado de saúde, ainda que subjetiva, é um indicador poderoso do seu nível de satisfação, resiliência e, em última análise, da sua qualidade de vida. Neste domínio, Portugal apresenta sinais preocupantes, como evidencia o relatório “Health at a Glance 2025” da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Cerca de 12,1% da população portuguesa autoavalia o seu estado de saúde como “mau” ou “muito mau”, um valor que se situa significativamente acima da média de 8.5% registada no conjunto dos países membros. Este dado, por si só, pinta um retrato de um mal-estar generalizado que merece uma análise mais aprofundada, sobretudo quando se desagrega por género, idade e condição socioeconómica.

Os indicadores de saúde mental emergem como uma das fraturas mais expostas neste retrato. Os sintomas de depressão moderada ou grave, em particular, não se distribuem de forma homogénea pela população, acentuando clivagens sociais e de género. As mulheres portuguesas são desproporcionadamente afetadas por esta condição, com uma prevalência que contrasta fortemente com a registada nos homens. Enquanto no sexo masculino os valores se situam em patamares residuais, nas mulheres as percentagens atingem níveis que não podem ser ignorados e que exigem uma resposta política e clínica direcionada. Especialistas em psiquiatria e psicologia clínica associam esta vulnerabilidade acrescida a uma complexa teia de fatores socioculturais e biológicos.

Por um lado, as mulheres continuam a suportar, em muitos casos, o peso de uma dupla jornada de trabalho – profissional e doméstica –, um fardo que, sem uma partilha equilibrada de responsabilidades, se traduz em exaustão crónica, stress e uma sobrecarga mental que mina a sua saúde psicológica. Por outro, a sua maior longevidade coloca-as perante um risco acrescido de pobreza na velhice, especialmente se as carreiras contributivas foram interrompidas ou precárias, fatores estes que são potentes catalisadores de ansiedade e depressão. A isto soma-se uma certa predisposição, discutida na literatura científica, para internalizar o stress e a ansiedade, manifestando-os mais frequentemente através de sintomas depressivos, enquanto os homens tendem a externalizá-los em comportamentos de risco ou adições.

Contudo, o género não é o único vetor de desigualdade. Os idosos constituem outro grupo de risco elevado, cuja situação é agravada pelo isolamento e pela fragilidade física. O envelhecimento da população portuguesa, uma tendência estrutural, traz consigo um aumento inevitável de patologias crónicas, limitações motoras e, em muitos casos, solidão. Viver sozinho, ter uma mobilidade reduzida e enfrentar a perda de entes queridos são experiências profundamente destabilizadoras que podem despoletar ou agravar quadros depressivos. Muitos destes idosos cresceram e viveram numa era em que as doenças mentais eram um tabu, um sinal de fraqueza ou até uma vergonha para a família. Este estigma, ainda muito enraizado na sociedade portuguesa, funciona como uma barreira formidável à procura de ajuda. Em vez de recorrerem a um psicólogo ou a um psiquiatra, muitos queixam-se de “nervos” ou de “tristezas” ao médico de família, mascarando a verdadeira dimensão do problema.

A este obstáculo cultural junta-se uma barreira de acesso ao cuidado. O Serviço Nacional de Saúde (SNS), apesar dos esforços meritórios nos últimos anos, continua a debater-se com listas de espera longas para consultas de psiquiatria e de psicologia. Um doente com um episódio depressivo, que precisa de intervenção rápida, pode ver o seu estado agravar-se enquanto aguarda por uma vaga. Esta demora não só prolonga o sofrimento do indivíduo e da sua família, como pode tornar o tratamento mais complexo e oneroso para o sistema de saúde a longo prazo.

A análise da OCDE vai mais longe e estabelece uma ligação clara entre os níveis de escolaridade e a saúde mental. Os dados são perentórios: os grupos populacionais com menores qualificações académicas são os mais afetados pelos problemas de saúde psicológica. A baixa escolaridade está frequentemente correlacionada com empregos mais precários, menores salários e piores condições de vida – um caldo de cultura para a insegurança e a ansiedade. Além disso, a literacia em saúde mental tende a ser mais baixa nestes grupos, o que dificulta o reconhecimento precoce dos sintomas e a compreensão da importância de procurar tratamento.

Perante este cenário multifacetado, ouvem-se vozes no setor da saúde a defender uma mudança de paradigma. A chave, argumentam muitos especialistas, passa por uma integração mais robusta e eficaz dos cuidados de saúde mental nos cuidados de saúde primários. Tornar os centros de saúde a primeira linha de defesa contra as perturbações psicológicas é crucial. Isto significa ter equipas multidisciplinares – que incluam psicólogos clínicos, psiquiatras e enfermeiros especializados – a trabalhar em articulação com os médicos de família. Esta proximidade torna os cuidados de saúde mental mais acessíveis, menos intimidatórios e mais desestigmatizantes. Uma consulta de psicologia no mesmo local onde se trata uma gripe ou se controla a diabetes normaliza estas problemáticas e incentiva a procura de ajuda atempada.

Em conclusão, os números apresentados pela OCDE não são meras estatísticas. São o reflexo de um sofrimento real e silencioso que afeta uma fatia significativa da sociedade portuguesa, com um rosto maioritariamente feminino, envelhecido e socioeconomicamente vulnerável. A saúde, como lembra a definição da Organização Mundial da Saúde, é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença. Os dados sugerem que, neste sentido amplo, muitos portugueses estão longe de alcançar este estado de plenitude. Reverter este quadro exige um combate determinado ao estigma, um investimento sério na capacitação dos cuidados primários e políticas públicas que ataquem as raízes da desigualdade, porque a saúde mental não é um luxo, mas um alicerce fundamental de uma sociedade coesa e saudável.

Fonte: OCDE (2025), Health at a Glance 2025: OECD Indicators, OECD Publishing, Paris. https://doi.org/10.1787/8f9e3f98-en

NR/OCDE/HN

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