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Foi com o projeto intitulado “From Mechanism to Biomarker: Redox Control of Stress Granules as a Neuroregenerative Driver in Alzheimer’s Disease” que uma equipa de cientistas sediada no Algarve garantiu a Bolsa Pereira Monteiro de Apoio à Investigação Translacional em Neurologia, referente ao ano de 2025. O financiamento, fixado em 10 mil euros e atribuído pela Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN), aterra nos laboratórios do Algarve Biomedical Center Research Institute (ABC-Ri), parte integrante da Universidade do Algarve (UAlg), para dar gás a uma investigação que tenta perceber por que razão o cérebro adulto perde a capacidade de se regenerar.
No centro da questão está a neurogénese. Se durante a fase embrionária este processo é um reboliço de atividade, na idade adulta resume-se a um nível meramente basal. O que a equipa coordenada pela investigadora principal Sónia Simão quer perceber é a mecânica por trás dessa estagnação. Existem no cérebro “reservatórios” de células estaminais neurais, mas estas encontram-se maioritariamente “adormecidas” ou em dormência. O problema agrava-se porque, perante lesões ou doenças neurodegenerativas como a doença de Alzheimer, estas células não despertam para gerar novos neurónios, impedindo a reparação do tecido.
O foco do estudo recai sobre os fatores que impõem esse sono celular. A hipótese de trabalho sugere que, identificando e compreendendo os mecanismos de bloqueio, será eventualmente possível desenhar estratégias para eliminar ou modular essas estruturas, potenciando a formação de novos neurónios justamente nas zonas onde eles fazem mais falta. Sónia Simão refere que a ideia é construir uma ponte sólida entre a “ciência básica e a ciência aplicada”, uma intenção clara na própria designação do projeto que vai do mecanismo ao biomarcador.
A metodologia delineada avança por etapas. Numa primeira fase, o recurso a modelos celulares da doença servirá para isolar os fatores associados à tal dormência das células estaminais. Caso se confirmem as suspeitas, esses fatores poderão constituir-se como marcadores de dano neuronal precoce. Posteriormente, a equipa prevê o acesso a amostras biológicas de doentes para rastrear esses mesmos elementos, avaliando a sua viabilidade enquanto biomarcadores clínicos. Há, no horizonte, a vontade de criar uma ferramenta de monitorização e diagnóstico precoce, embora a equipa mantenha os pés na terra, reconhecendo o “longo percurso entre os resultados obtidos em investigação básica e a sua aplicação clínica”.
Este trabalho desenvolve-se no seio do Grupo de Neurogénese, sob a liderança de Inês Araújo. A compor o xadrez de investigadores, além de Sónia Simão e Inês Araújo (ambas ligadas ao ABC-Ri e à Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas), estão Hipólito Nzwalo, Rafaela Agostinho e, vindo de Madrid, Antonio Martinez-Ruiz. É um esforço que Sónia Simão caracteriza como um “processo coletivo e partilhado”, essencial para acelerar respostas terapêuticas, deixando ainda uma nota às famílias sobre a esperança de que a ciência traga, a seu tempo, soluções mais eficazes, e um apelo aos jovens cientistas para que confiem nas suas ideias.
PR/HN/MMM



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