Cientistas portugueses descobrem bactéria que restaura microbiota após antibióticos

12 de Dezembro 2025

Uma equipa de cientistas do Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular, em Portugal, identificou uma nova estirpe bacteriana que contribui para a recuperação da microbiota intestinal, reduz a inflamação e impede infeções. 

A descoberta, realizada em ratinhos, aponta para um potencial avanço no tratamento de desequilíbrios intestinais e nas terapias probióticas.

A bactéria, designada Klebsiella sp. ARO112, pertence ao grupo Klebsiella pneumoniae, conhecido por causar infeções hospitalares, mas esta estirpe revelou-se inofensiva e com efeitos benéficos. A equipa de investigação descobriu que a presença desta bactéria é determinante para a recuperação da microbiota após a administração de antibióticos. Em ratinhos que possuíam a Klebsiella sp. ARO112, a microbiota intestinal recuperava-se mais rapidamente, protegendo-os contra agentes infecciosos, ao passo que os que não a tinham mostravam uma recuperação menos eficaz.

A colonização da Klebsiella sp. ARO112 foi observada principalmente em intestinos com microbiota desequilibrada, como consequência do uso de antibióticos, e ocorreu em níveis baixos em microbiotas consideradas saudáveis. No laboratório, a bactéria mostrou capacidade para bloquear patogénios como Salmonella e estirpes patogénicas de Escherichia coli, além de reduzir patologias associadas à inflamação intestinal.

Em modelos de ratinhos com doença inflamatória intestinal e microbiota comprometida, o tratamento com Klebsiella sp. ARO112 após exposição a antibióticos e infeções bacterianas permitiu uma recuperação mais rápida da microbiota, a eliminação das infeções e uma redução significativa da inflamação. Este efeito sugere que a bactéria poderá ser utilizada como um complemento terapêutico para restaurar o equilíbrio intestinal após tratamentos com antibióticos, podendo representar uma alternativa segura e precisa a procedimentos como o transplante fecal.

Os testes de segurança indicaram que a Klebsiella sp. ARO112 não apresenta características associadas a bactérias causadoras de doença, como a formação de biofilmes, nem adquire facilmente genes de resistência a antibióticos. Mesmo quando foi artificialmente conferida resistência, essa foi perdida naturalmente em poucos dias. A presença da bactéria no intestino é temporária, desaparecendo à medida que a microbiota recupera o seu equilíbrio.

O estudo realça também a importância de desenvolver probióticos ajustados a situações clínicas específicas, dado que um probiótico comercialmente usado na Europa, o Escherichia coli Nissle 1917, não mostrou efeito protetor nos ratinhos testados.

Esta investigação foi realizada em colaboração com instituições científicas de Espanha e Suíça e foi publicada na revista Nature Communications.

lusa/HN

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