Trabalhadores do INEM definem fronteiras intransigentes para negociação da reestruturação

12 de Dezembro 2025

Os profissionais do Instituto Nacional de Emergência Médica estabeleceram esta quarta-feira as suas condições non negotium para o diálogo com a direção, num clima de apreensão face ao plano de refundação da instituição. A assembleia geral aprovou por larga margem um conjunto de exigências que consideram fundamentais, num movimento que antecede as conversações formais com o conselho diretivo liderado por Luís Mendes Cabral.

Rui Gonçalves, coordenador da comissão de trabalhadores, não deixou margem para dúvidas ao sair da reunião. “Foi preciso traçar estas linhas com clareza, até para nosso próprio governo interno. A parr de agora, sabemos o que não ceder em qualquer cenário de negociação sobre o futuro do INEM e dos seus profissionais”, explicou à Lusa. A posição foi já comunicada à nova administração, dias após a entrega ao Ministério da Saúde do polémico relatório da Comissão Técnica Independente (CTI).

No centro das preocupações está a salvaguarda integral dos postos de trabalho e a rejeição absoluta de qualquer mobilidade forçada. Os trabalhadores exigem ainda a manutenção dos atuais contratos em funções públicas, com todas as regalias associadas a esse vínculo. “Não é um capricho. É a defesa de um estatuto que garante independência e foco na missão”, insistiu Gonçalves. Outro ponto considerado inegociável prende-se com os protocolos de atuação médica dos quais dependem os Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (TEPH), bem como a carga horária dedicada à sua formação contínua.

O dirigente sindical não poupou críticas ao documento da CTI, qualificando-o de “superficial e anacrónico”. “É frustrante. Estamos perante um relatório que se limita a identificar problemas conhecidos há mais de uma década, sem apresentar soluções concretas ou sequer originais. As premissas são, na nossa leitura, enviesadas”, desabafou. E acrescentou: “Esta crise instalada não foi gerada por quem está no terreno, dia e noite. Resulta de opções políticas e de gestão sucessivas, alheias à realidade operacional.”

Apesar do tom firme, Rui Gonçalves admitiu que o conselho diretivo sinalizou abertura para discutir as preocupações apresentadas. Está previsto que, já na próxima semana, se inicie uma ronda intensiva de reuniões entre a comissão de trabalhadores e a administração. “Há uma janela de oportunidade. Queremos contribuir ativamente, apresentar propostas alternativas que melhorem efetivamente o serviço. Desde que, repito, não sejamos tratados como variável de ajuste num exercício teórico”, afirmou.

A ansiedade entre os cerca de mil profissionais é palpável, alimentada por notícias sobre o conteúdo do relatório técnico. Esse documento, encomendado pelo Governo, diagnostica deficiências graves nos sistemas de comando, controlo e auditoria do INEM, apontando ainda para uma “progressiva deterioração” em indicadores-chave como os tempos de resposta e o número de chamadas perdidas. Como solução, a CTI propõe uma mudança radical: a integração dos meios diferenciados – como os helicópteros de emergência e as Viaturas Médicas de Emergência e Reanimação (VMER) – nas unidades locais de saúde. Já as ambulâncias de suporte básico de vida poderiam, segundo o relatório, ser contratualizadas a entidades externas, públicas ou privadas.

O Governo pretende avançar com um decreto-lei que materialize a reestruturação até final de janeiro de 2026. Enquanto isso, no terreno, os trabalhadores prometem fazer ouvidos moucos a qualquer proposta que contrarie as linhas vermelhas hoje traçadas. “O foco final tem de ser o cidadão. Qualquer melhoria no sistema tem de servir primeiro o doente e, depois, de forma justa, quem assegura o serviço”, rematou o coordenador, deixando no ar um misto de determinação e incerteza sobre o desfecho deste processo.

NR/HN/Lusa

1 Comment

  1. Luís

    E o concurso para TEPH que já só esperava a homologação? Passamos todas as fases para agora ficar tudo em nada?

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