Dor na Doença Inflamatória Intestinal: Medo Altera Perceção da Dor, Revela Estudo

13 de Dezembro 2025

Investigadores da Universidade Ruhr de Bochum descobriram que mecanismos psicológicos, nomeadamente a forma como o medo condiciona a perceção, podem explicar a dor abdominal persistente em pacientes com doença inflamatória intestinal, mesmo em fases de remissão. O estudo defende uma abordagem terapêutica mais personalizada

Pacientes com doença inflamatória intestinal (DIB) queixam-se frequentemente de dor abdominal persistente, um sintoma que teima em perdurar mesmo quando os marcadores de inflamação activa se atenuam. Um novo estudo conduzido na Alemanha sugere que a chave para este fenómeno pode residir não apenas no intestino, mas também na maneira como o cérebro, condicionado pelo medo, processa os sinais dolorosos. A investigação, publicada na revista científica PAIN, aponta para a necessidade de incorporar estratégias psicológicas nos planos de tratamento convencionais.

“A persistência da dor em fases de remissão da doença indica que outros mecanismos, para além dos processos inflamatórios agudos, contribuem para a cronificação deste sintoma”, explica a Doutora Hanna Öhlmann, do Centro de Psicologia Médica e Neurociência Translacional da Universidade Ruhr de Bochum. “Uma possibilidade é que o processamento emocional da dor esteja alterado.”

O foco do trabalho recaiu sobre o medo, uma emoção crítica no contexto da dor. Perante uma experiência dolorosa, aprendemos rapidamente a temer estímulos que a antecedem, desenvolvendo comportamentos de evitamento protetores. Contudo, noutras condições de dor crónica, como a síndrome do intestino irritável, sabe-se que este aprendizado relacionado com o medo pode ser exacerbado. “Juntamente com um evitamento persistente, isto pode fazer com que a dor abdominal seja percecionada como cada vez mais ameaçadora, o que, por sua vez, pode perpetuar a própria dor”, detalha Öhlmann.

Para testar esta hipótese na DIB, a equipa recrutou 43 participantes, 21 dos quais com colite ulcerosa (uma subforma da DIB) e os restantes saudáveis. Num experimento de aprendizagem realizado ao longo de dois dias, os participantes foram expostos a símbolos visuais associados ou não a um estímulo de calor doloroso aplicado no abdómen. O objetivo era avaliar a aquisição e a extinção do medo condicionado à dor. Num momento surpresa, no segundo dia, o estímulo doloroso foi reaplicado sem aviso prévio.

Os resultados mostraram uma clara divergência entre os grupos. Quando reexpostos à dor inesperada, os pacientes com DIB classificaram a experiência como significativamente mais desagradável e mais intensa do que os participantes saudáveis. A análise dos dados revelou um elo crucial: no grupo de pacientes, quanto maior tinha sido a aprendizagem do medo no primeiro dia, mais desagradável e intensa foi a perceção da dor no segundo. Curiosamente, os doentes não aprenderam mais medo inicialmente do que os controlos. A diferença residiu no impacto que esse medo, uma vez adquirido, teve na experiência sensorial posterior.

“O processo de aprendizagem em si não difere, mas sim a forma como o medo se liga à perceção da dor”, sublinha a investigadora. Esta nuance sugere que os surtos inflamatórios recorrentes, típicos da DIB, podem alterar progressivamente os circuitos cerebrais que processam a dor e o medo, tornando a perceção mais vulnerável a contextos emocionais. Estudos anteriores de neuroimagem, que detetaram alterações estruturais e funcionais em regiões cerebrais associadas a estas funções em pacientes com DIB, vão ao encontro desta interpretação.

As implicações para a prática clínica são directas. O tratamento da DIB tem orbitado tradicionalmente o controlo da inflamação gastrointestinal. Porém, estes dados reforçam a ideia de que factores psicológicos, como o medo associado à dor e os comportamentos de evitamento, são peças fundamentais do puzzle. “A dor abdominal crónica deve ser reconhecida como uma característica importante da doença e tratada em conformidade”, defende Hanna Öhlmann. Pacientes com inflamação controlada, mas que continuam a sofrer com a dor, poderão beneficiar particularmente de uma visão mais holística. “Abordagens psicológicas, por exemplo derivadas da terapia cognitivo-comportamental e que incidam especificamente sobre o medo e a evitação, devem ser investigadas de forma sistemática”, conclui, sugerindo que este princípio poderá ser extensível a outras doenças inflamatórias crónicas associadas a dor, como a artrite reumatóide.

O trabalho foi financiado pela Deutsche Forschungsgemeinschaft (DFG), no âmbito do projeto SFB 1280 (número 316803389).

https://news.rub.de/english/press-releases/2025-12-11-medical-psychology-emotions-play-role-inflammatory-bowel-disease
Referência bibliográfica: Hanna Öhlmann et al., Fear conditioning shapes pain perception in inflammatory bowel disease: A prospective experimental study, PAIN (2025). Publicado a 26 de novembro de 2025

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