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Quase uma dezena de países árabes e muçulmanos fechou o cerco em torno da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina. A mobilização surge na sequência da renovação, pela Assembleia Geral das Nações Unidas, do mandato da UNRWA por um período de três anos. Para estes governos, a decisão em Nova Iorque consolida a confiança internacional na organização, um pilar que consideram absolutamente incontornável no terreno.
Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Indonésia, Paquistão, Turquia, Arábia Saudita, Qatar e Egito assinaram um comunicado conjunto no qual descrevem a agência como tendo um “papel indispensável”. O texto, divulgado a partir de Doha, frisa que, durante décadas, a UNRWA tem sido a única tábua de salvação para milhões, assegurando serviços de educação e saúde, para além de apoio social e de emergência. Há qualquer coisa de fúnebre na maneira como enumeram os mais de 70.300 mortos na ofensiva israelita em Gaza, um número que justifica a referência a uma “crise humanitária sem precedentes”.
Os ministros dos Negócios Estrangeiros envolvidos não economizaram nos adjetivos. A rede de distribuição da agência, disseram, opera de forma “justa e eficiente”, sendo crítica para a entrega de alimentos e bens essenciais. As suas escolas e centros de saúde, ainda que operem “em condições extremamente difíceis”, são apresentadas não apenas como um refúgio, mas como um antídoto contra o desespero, ajudando os palestinianos a “permanecerem no seu território”. A declaração é peremptória: a UNRWA “é insubstituível”. Qualquer enfraquecimento, avisam, traria “graves repercussões” de cariz humanitário, social e político, com ecos em toda a região.
O apelo é claro: a comunidade internacional deve garantir um “financiamento sustentável e adequado” e assegurar o espaço político e operacional de que a organização necessita. Mas o comunicado vai além da defesa financeira. Nele, os países signatários condenam veementemente a recente incursão das forças israelitas na sede da UNRWA em Jerusalém Oriental, um episódio em que a bandeira das Nações Unidas foi arreada e substituída por uma israelita. Tal ato, alegam, constitui uma “violação flagrante do direito internacional” e um desrespeito pela inviolabilidade das instalações da ONU. Mais: colocam-no em rota de colisão com o parecer consultivo do Tribunal Internacional de Justiça de 22 de outubro de 2025, que, segundo entendem, reforça as obrigações de Israel como potência ocupante em facilitar o trabalho da agência.
Esta posição colectiva parece também uma resposta indirecta às acusações lançadas por Israel no início do ano. A Knesset, o parlamento israelita, proibiu as operações da UNRWA no país, baseando-se em alegadas ligações entre elementos da agência e o grupo Hamas. No entanto, o Tribunal Internacional de Justiça veio a decidir que Israel não conseguiu provar que uma parte significativa dos funcionários eram membros do movimento islamita, nem demonstrou uma suposta falta de neutralidade na atuação humanitária. Um revés para a narrativa oficial israelita que agora estes oito países aproveitam para sublinhar, num momento de tensão extrema e onde cada gesto diplomático carrega o peso de velhas feridas.
NR/HN/Lusa



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