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Espanha desenha um retrato preocupante no seu primeiro “Atlas da Desertificação”. O trabalho, uma espécie de diagnóstico cirúrgico coordenado pela Universidade de Alicante e pelo Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), com financiamento europeu, aponta que 40,9% do território nacional, o equivalente a 206.217 quilómetros quadrados, está já num processo ativo de degradação da terra que pode desembocar em desertificação. Mais de 70% da superfície do país enfrenta risco significativo, segundo o documento publicado no final de novembro.
Os investigadores, dezenas espalhados por todo o país, sublinham que o conceito vai muito além da imagem estéril de um deserto. Trata-se, explicam, de uma degradação profunda dos ecossistemas das zonas áridas, semiáridas e sub-húmidas secas, impulsionada por uma conjugação perversa: as variações climáticas e, sobretudo, “uma atividade humana inadequada”. Isto é, aquela que extrai dos recursos naturais mais do que estes conseguem regenerar de forma permanente.
No caso espanhol, essa pressão manifesta-se com especial crueza sobre a água. O atlas revela que em mais de 42% do território o ‘stress’ hídrico é “extremamente alto”, com o consumo a ultrapassar os 80% dos recursos de água doce disponíveis. Outros 25% do país registam um ‘stress’ considerado alto. No ranking mundial deste indicador, Espanha ocupa um pouco honroso 29.º lugar. “Somos viciados na água”, admitem os autores, sem que até agora se tenham encontrado respostas adequadas para um consumo tão desmesurado.
O setor agrícola emerge como o grande consumidor, com 22.500 hectómetros cúbicos gastos anualmente. Quarenta por cento das massas de água subterrâneas estão degradadas, uma percentagem que sobe para 86% nos aquíferos da demarcação hidrográfica do Guadiana. A expansão da agricultura de regadio, que chega a aplicar água a culturas tradicionalmente de sequeiro como a oliveira, é um dos motores desta dinâmica. Paralelamente, o desperdício alimentar — quase 484 mil toneladas de frutas e hortaliças descartadas entre 2018 e 2024 — representou, só aí, uma pegada hídrica de cerca de 36 hectómetros cúbicos. Um disparate que os cientistas atribuem a uma produção que excede as necessidades, guiada por “critérios económicos de curto prazo que substituem o senso comum”.
Mas o atlas não aponta apenas o dedo à exploração intensiva. Aponta-o também ao seu oposto: o abandono. O êxodo rural precipitado das últimas décadas deixou para trás paisagens subutilizadas, agora propensas a incêndios florestais cada vez maiores e mais incontroláveis. Estas áreas, sem gestão, onde a vegetação invade antigos campos, tornaram-se autênticas bombas-relógio. Quando ardem, os fogos de nova geração são capazes de alterar as condições meteorológicas locais e degradam ainda mais os solos, alimentando o ciclo da desertificação.
“As sociedades como a espanhola confiam em que uma nova proposta tecnológica resolva o problema”, lamentam os coordenadores do estudo, enquanto se mantêm padrões de consumo insustentáveis. A alta concentração populacional no litoral mediterrânico, agravada pelo turismo de massa, exemplifica essa pressão desequilibrada sobre ecossistemas já frágeis.
O documento, serve assim como um aviso sem retoques: o processo avança em silêncio, mas as suas consequências — perda de fertilidade do solo, regressão da vegetação natural, escassez de água — são já palpáveis. E exigem, segundo os seus autores, uma mudança de rumo imediata.
NR/HN/Lusa



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