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Há noites assim, ainda que fatigados, o sono teima em não se conciliar connosco.
A chuva, intensa e certinha, não ajudava paradoxalmente…
Dei comigo a pensar na relação enquanto médico com o país em que vivo.
A Medicina, ou a Saúde, como a actividade política aliás, já terão conhecido melhores dias.
Curiosamente, se por um lado muitos dos problemas que se colocam aos profissionais de saúde, ao SNS e aos cidadãos em geral, não encontraram espaço, nem tempo nas campanhas eleitorais do partidos políticos para discussão séria e interesse dos candidatos, por outro o foco da comunicação social – fazedora da moda e da opinião pública – centra-se com estrondo nessas questões.
Essa falta de proporcionalidade é estranha, mas como dizia um outro, “a gente a tudo se habitua”.
É certo que, quando os partidos estão no poder “embrulham” ou impõem as opções políticas, por regra conjunturais – e a Saúde é o melhor exemplo, uma manta de retalhos e buracos sem estratégias de fundo e a rebentar com medidas avulsas – invocam a legitimidade eleitoral concedida através dos votos.
O que é uma falácia porque o sistema eleitoral vigente está longe, muito longe de representar ou auscultar mesmo, o pensamento e a vontade dos eleitores sobre cada tema, cada área, cada assunto da governação e do país.
O povo limita-se de modo dócil e arrebanhado a ir votar quando lhe marcam eleições.
E a votar em uma ou duas caras dos partidos que conhecem, ignorando por completo quem são os candidatos a deputados, quais as suas qualificações e competências, o seu pensamento e perspectiva de futuro sectorial, os planos de governação.
De forma directa, os votos estão comprometidos para assegurar o acesso aos cargos políticos de quantos optam por fazer da política a sua actividade profissional.
E porque se fala em pactos de regime sempre que batemos no fundo?
Porque só sob água percebemos que nos estamos a afogar.
As questões da saúde justificariam um tratado de interpretação e de teorização.
E realmente, a medicina e os médicos em geral, atravessam um período de perigosos desafios e recheados de casos e casinhos, que sob o ponto de vista ético, legal, clínico, comportamental e cívico, extravasam os caminhos de integridade e humanidade que se lhes exigem e impõem.
Estamos num cenário que, de algum modo, parece evidenciar que a medicina corre o risco de se confrontar e perder com o próprio sucesso e imagem granjeada.
É altura de as escolas médicas, as sociedades científicas, a Ordem dos Médicos e a classe no seu conjunto, reflectirem decidida, aberta e profundamente sobre o percurso profissional dos médicos.
Não basta iludirmo-nos nas tecnologias e nas artificialidades que, não chegam para garantir a compreensão do sofrimento, a solidariedade com o doente ou a humanidade do relacionamento médico-doente e que, são afinal, a razão para que a Medicina e a Educação nunca possam deixar de ser actividades de relação humana desempenhadas por seres humanos!
Há que discutir a acessibilidade à formação pré-graduada, valorizar competências múltiplas para além dos conhecimentos, rever e aprofundar a fase de contacto com o exercício pós-curso médico, qualificar o período de pós-graduação, reforçar os compromissos éticos, de certificação regular e de erradicação de formas de fraude profissional, ou a elas associadas, exercer a sua cidadania, interpretar e respeitar o código Hipocrático.
Não me recordo exactamente do momento em que adormeci.
Mas acordei e triste, percebi não ter tido nenhum sonho natalício!
O que me não impede de desejar um Bom Natal para Todos.


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