Tecido Adiposo em Volta do Coração Pode Agravar Danos após Enfarte

13 de Dezembro 2025

Um estudo apresentado no congresso EACVI 2025, em Viena, sugere que um maior volume de gordura epicárdica está associado a lesões miocárdicas mais extensas após um enfarte agudo do miocárdio

O volume de tecido adiposo epicárdico, aquela camada de gordura que envolve diretamente o músculo cardíaco e as artérias coronárias, parece ter uma influência direta — e negativa — na gravidade da lesão cardíaca após um enfarte. A conclusão é de uma investigação multicêntrica prospectiva que analisou 1168 doentes, cujos dados foram apresentados esta sexta-feira, 12 de dezembro, no congresso da Associação Europeia de Imagem Cardiovascular, em Viena.

A equipa, liderada por Clara Hagedorn e pelo Dr. Alexander Schulz, do University Hospital Göttingen, na Alemanha, recorreu à ressonância magnética cardiovascular (RMC) para medir o volume de gordura epicárdica e a extensão da lesão miocárdica em doentes submetidos a intervenção coronária percutânea na sequência de um enfarte agudo. Os doentes foram depois divididos em quartis conforme o volume de gordura.

Os resultados, que acabam por levantar novas interrogações ao mesmo tempo que confirmam suspeitas anteriores, mostram que os doentes no quartil superior de volume de gordura epicárdica eram, em média, mais velhos e tinham um índice de massa corporal mais elevado. Mas o cerne da questão está noutro ponto: um volume maior deste tecido adiposo mostrou uma associação independente com um tamanho de enfarte significativamente maior e com uma área de miocárdio em risco mais extensa.

Curiosamente — e aqui os investigadores admitem a complexidade dos mecanismos fisiopatológicos em jogo —, um maior volume de gordura epicárdica foi associado a menos obstrução microvascular, um fenómeno distinto e por vezes paralelo à necrose do músculo cardíaco. Já a fração de ejeção do ventrículo esquerdo, a medida clássica da capacidade de bombeamento do coração, não apresentou diferenças significativas entre os grupos com mais ou menos gordura.

“Conseguimos demonstrar que doentes com um volume aumentado de tecido adiposo epicárdico exibiram uma lesão miocárdica aguda mais extensa após o enfarte”, afirmou Clara Hagedorn durante a apresentação na sessão Young Investigators Award. A investigadora defendeu que “a quantificação não invasiva do volume de gordura epicárdica através de RMC poderá vir a desempenhar um papel decisivo na avaliação do risco cardiovascular, para lá dos fatores de risco convencionais”.

Por seu lado, o Dr. Alexander Schulz, autor sénior do trabalho, olha para o futuro e para os mecanismos ainda por desvendar. “Gostaríamos de compreender melhor os processos através dos quais a gordura epicárdica impacta o miocárdio”, referiu. O médico sublinhou que o enfarte ocorre numa fase relativamente tardia do desenvolvimento da doença arterial coronária, deixando no ar uma possibilidade clínica intrigante: “Poderá ser possível intervir mais cedo neste processo, identificando doentes com volume elevado de gordura epicárdica e modulando os seus efeitos como medida preventiva.”

O estudo, intitulado “Increased CMR-derived epicardial adipose tissue volume is associated with more extensive acute myocardial injury after myocardial infarction”, foi apresentado a 12 de dezembro. A investigação baseia-se em trabalhos anteriores que já tinham estabelecido uma ligação entre a gordura epicárdica, a doença arterial coronária e eventos cardiovasculares maiores, devido à sua capacidade de libertar mediadores inflamatórios que infiltram e podem remodelar adversamente o músculo cardíaco.

Referências:
Timmis A, Aboyans V, Vardas P, et al. European Society of Cardiology: the 2023 Atlas of Cardiovascular Disease Statistics. Eur Heart J. 2024;45:4019–4062.
Guglielmo M, Lin A, Dey D, et al. Epicardial fat and coronary artery disease: Role of cardiac imaging. Atherosclerosis. 2021;321:30–38.

NR/HN/AlphaGalileo

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