Manuel Abecasis: “Estamos a entrar numa nova era do tratamento do cancro”

12/14/2025
Num momento de viragem na hemato-oncologia, o Professor Manuel Abecasis, Presidente da APCL, explica como terapias como as células CAR-T e a medicina de precisão estão a transformar doenças fatais em condições crónicas ou curáveis. Nesta entrevista exclusiva ao Healthnews, aborda ainda os desafios de acesso, a preparação do SNS e o caminho para uma visão mais holística do doente

HealthNews (HN) – Vivemos um momento de mudança de paradigma no tratamento das doenças hemato-oncológicas. Na sua perspetiva, de que forma é que inovações como as terapias CAR-T e a medicina de precisão estão a transformar condições, outrora fatais, em doenças crónicas ou mesmo curáveis?

Manuel Abecasis (MA) – A imunoterapia das doenças hemato-oncológicas, veio trazer uma revolução ao que entendemos pelo tratamento convencional destas doenças. O 1º passo foi dado, nos anos 90 do século passado, com a introdução de um anticorpo monoclonal específico juntamente com a quimioterapia convencional, no tratamento de certos linfomas, com uma melhoria significativa dos resultados. Estes resultados abriram perspetivas novas no tratamento das doenças hemato-oncológicas, valorizando o papel do sistema imunitário no seu tratamento. Aos anticorpos monoclonais simples seguiram-se os anticorpos conjugados com medicamentos e os biespecificos (fazendo uma sinapse entre os linfócitos T e as células alvo) e recentemente o aparecimento das células CAR T, que não são mais do que os linfócitos do próprio doente modificados geneticamente no laboratório e que por força dessa manipulação são considerados como medicamentos. Além destas inovações surgiram um conjunto de outros medicamentos, conhecidos por “pequenas moléculas”, que atuam interferindo com as vias moleculares de sinalização relacionadas com o crescimento e proliferação das células tumorais. Estamos a entrar numa nova era do tratamento do cancro, uma abordagem que vem substituir ou melhorar os resultados obtidos com os tratamentos convencionais.

HN – A terapia com células CAR-T é frequentemente descrita como um “medicamento vivo”. Pode explicar-nos, de forma simples, em que consiste este tratamento revolucionário e em que difere de tratamentos convencionais como a quimioterapia?

MA – O sistema imunitário, através dos linfócitos, tem um importante papel na vigilância antitumoral diária do organismo. Quando essa função perde a sua eficácia, em parte por influência de um tumor que se desenvolve, a doença progride. Após a remoção dos linfócitos T do doente, estes são enviados para um laboratório de produção de células CAR T, onde são geneticamente modificados para produzirem uma proteína especializada designada por recetor quimérico (Chimeric Antigenic Receptor) na sua superfície, que vai reconhecer as células tumorais. Seguidamente multiplicam-se por muitos milhões, são congeladas e devolvidas ao hospital de origem e preparadas para ser reinfundidas ao doente. No organismo deste, ao encontrarem o antigénio alvo iniciam um rápido processo de proliferação e eliminam as células que o expressam na sua membrana. Todo este processo é muito complexo e a infusão das células tem toxicidades especificas, razão pela qual há apenas 5 centros qualificados para o fazerem em Portugal.

HN – Um dos grandes desafios atuais é garantir o acesso equitativo a estas terapias inovadoras em todo o território nacional. Quais são, do ponto de vista da APCL, os principais obstáculos à sua implementação alargada em Portugal?

MA – O mais importante, no nosso ponto de vista, é definir uma rede de referenciação nacional, incluindo todos os serviços de Hematologia do país e definindo plataformas de acesso aos tratamentos para cada nível, reservando-se os tratamentos de maior complexidade, como a aplicação de células CAR T e os transplantes, para os serviços mais diferenciados. É necessário que todos os serviços disponham de recursos humanos e técnicos, assim como de instalações e equipamento, que lhes permitam corresponder adequadamente às suas responsabilidades na rede e implementar um funcionamento em rede de todos.

HN – Para que estas terapias complexas cheguem a todos os doentes que delas necessitem, é fundamental a existência de centros altamente especializados e circuitos de referenciação ágeis. Como está o Sistema Nacional de Saúde a preparar-se para responder a esta necessidade?

MA – Esta questão, muito pertinente, deve ser colocada a quem de direito. Recentemente, a iniciativa SHARP, coordenada pela NOVA Information and Management School e agregando um conjunto diverso de participantes, entre os quais profissionais de saúde, pacientes, cuidadores, investigadores, decisores políticos e decisores executivos, refletiu e discutiu o futuro das terapias celulares em Portugal. Foram identificadas as principais tendências e desafios, bem como potenciais soluções para otimizar o acesso e promover maior equidade na disponibilização desta tecnologia em Portugal. As conclusões desta iniciativa foram apresentadas à Comissão Parlamentar de Saúde da AR, à DGS, à ACSS e à Secretária de Estado da Saúde.

HN – Para além dos desafios logísticos e clínicos, estes tratamentos representam um custo financeiro significativo. Como pode Portugal equilibrar a sustentabilidade do SNS com a necessidade de integrar terapias de ponta, que são, por natureza, dispendiosas?

MA – Estão em estudo vários modelos de financiamento possíveis envolvendo o Ministério da Saúde a indústria farmacêutica

HN – As VI Jornadas da APCL na Fundação Champalimaud visam reunir doentes, cuidadores e profissionais de saúde. Qual é a mensagem mais importante que gostaria que este evento transmitisse sobre o futuro da hemato-oncologia no nosso país?

MA – A APCL é uma associação de doentes hemato-oncológicos e profissionais de saúde responsáveis pelo seu tratamento e está empenhada em apoiar os doentes e cuidadores ao longo da jornada da doença. Fá-lo promovendo a literacia sobre estas doenças, apoiando financeiramente situações pontuais bem identificadas, promovendo o apoio psicológico e social dos doentes e cuidadores. Acreditamos que o desenvolvimento e consolidação destas intervenções pode proporcionar para uma abordagem holística destas doenças e dar um contributo para melhor encarar o futuro.

4 Comments

  1. Antônio Figueiredo

    O SNS deve investir nestas novas tecnológicas.Dar formação a equipas de médicos! O combate ao cancro é fundamental! Evitar perdas humanas é um dever das sociedades!

  2. Bernardette Proença

    Era tão bom que o nosso SNS conseguise esta inovação!
    Obrigada Dr.Abecassis.

  3. Teresa Pardea

    Excelente trabalho de pesquisa obrigado a toda a equipe . Gostaria de saber quais os Hospitais preparados para esta nova terapia . Obrigada 🙏

  4. Leonor Pereira

    Muito obrigada pelo seu tempo precioso que dedicou a informar-nos!
    Está aqui uma partilha generosa que vai para além do médico, evidenciando o Humanista!
    Bem-Haja! 🌹

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