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Um projeto interdisciplinar norueguês está a investigar os níveis de pressão sonora dentro das incubadoras de cuidados intensivos neonatais, com um foco particular no equipamento de suporte respiratório. A iniciativa, que envolve a Prematurforeningen (Associação Norueguesa da Prematuridade), a instituição de pesquisa SINTEF, o Rikshospitalet e o Hospital de St. Olav, tem como objetivo final proteger a audição e o desenvolvimento neurológico dos bebês prematuros.
Simone Conta, consultora sénior da SINTEF e uma das investigadoras envolvidas, explica que “a incubadora expõe estas crianças a níveis de som que excedem os limites recomendados”. A fonte de ruído identificada como mais crítica é o equipamento de suporte respiratório não invasivo, usado frequentemente durante semanas para tratar a síndrome de desconforto respiratório, comum em bebés nascidos antes das 34 semanas de gestação. Para estes bebês, particularmente vulneráveis a impressões sensoriais fortes, a exposição contínua a níveis elevados pode ter consequências a longo prazo. “Uma perda auditiva não tratada pode, por sua vez, afetar a fala, a linguagem e o desenvolvimento cognitivo e social”, alerta Conta, sublinhando o impacto potencial na qualidade de vida da criança.
O plano de trabalho do projeto assenta em três pilares: documentar a situação atual, mapeando equipamentos e medindo as suas propriedades acústicas; desenvolver um modelo de demonstração para dialogar com os fabricantes; e disseminar conhecimento entre profissionais de saúde, fabricantes e decisores para influenciar práticas e escolhas. Hege A. Nordhus, diretora executiva da Prematurforeningen, enfatiza a vertente prática: “O nosso objetivo é que o conhecimento deste projeto conduza a melhorias reais nos cuidados neonatais”.
O problema do ruído nas UTIN não é novo, mas a quantificação dos seus efeitos continua a ser urgente. Um estudo realizado num hospital universitário brasileiro mediu, durante 261 horas, os níveis de pressão sonora dentro de incubadoras. Os resultados indicaram que, fora dos períodos de intervenção de “horário do soninho”, os níveis médios de ruído contínuo equivalente (Leqmédio) chegavam a 79.7 dBA numa sala e 74.3 dBA noutra. Durante as intervenções, esses valores caíam para 58.5 dBA e 53.1 dBA, respetivamente, aproximando-se das recomendações. Esta redução, no entanto, requer esforço contínuo. Uma iniciativa de melhoria de qualidade numa UTIN de nível IV nos Estados Unidos conseguiu reduzir o ruído ambiental médio de 62.4 dB para 56.1 dB em 12 meses, através de educação da equipa e modificações comportamentais e ambientais.
A preocupação com a saúde auditiva destes bebês é fundamentada por dados clínicos. Um estudo retrospetivo com mais de cinco mil crianças no Brasil identificou que a permanência na UTI neonatal constitui um dos principais fatores de risco associado ao insucesso no reteste de emissões otoacústicas, um exame de rastreio auditivo.
O projeto norueguês pretende agora estabelecer uma ponte direta entre a investigação e a prática clínica. “A coisa única neste projeto é que não se trata apenas de investigação, mas de efeito imediato”, defende Simone Conta. A ambição é que pequenos ajustes nos equipamentos, nas suas configurações e nas rotinas das unidades possam fazer uma diferença significativa no ambiente onde os recém-nascidos pré-termo lutam pelas suas vidas e pelo seu desenvolvimento.
Link para o website do projeto (em norueguês): Lydtrykknivå i kuvøsen ved bruk av pustestøtte
NR/HN/ALphaGalileo



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