Liliana Sousa
Bastonária da Ordem dos Nutricionistas

A Nutrição em Portugal: os desafios atuais e as oportunidades do futuro

12/15/2025

No dia 14 de dezembro, celebrou-se o Dia do Nutricionista, um dia que comemora os profissionais dotados de conhecimento, saber, empatia e humanização nos cuidados nutricionais que, direta ou indiretamente, colocam ao serviço de todos os cidadãos.

Talvez nunca se tenha falado tanto de alimentação, do seu impacto, do seu importante papel e das consequências da sua escassez ou do seu excesso. De igual forma, também o nutricionista é hoje cada vez mais reconhecido como o profissional preparado e capacitado para atender às necessidades nutricionais da população.

O nutricionista é o único profissional que comunica através da forma mais saborosa de o fazer, usando os sentidos como o ingrediente para a obtenção dos resultados do seu trabalho. Os sentidos comuns a quem cuida e a quem recebe, porque a matéria-prima serve a todos, sendo o alimento a base que sustenta a saúde e o remédio que suporta o tratamento da doença. Já o disse, em ocasiões passadas, e reafirmo: o nutricionista é, talvez, um dos profissionais de saúde mais completo, na perspetiva em que atua nos três grandes alicerces dos cuidados de saúde: promoção, prevenção e terapêutica.

O nutricionista é mestre em várias artes: identifica necessidades, comunitárias ou individuais, adapta-as a condições clínicas e a diferentes fases da doença, quando ela existe, materializa-as em produto final, intervindo em todos os níveis, desde a produção à prescrição, do desenvolvimento do produto industrial à exigência e controlo da sua qualidade e segurança, cuida da alimentação de massas, ajusta o equilíbrio nutricional de ementas e de planos individuais, trabalha a performance física, garantindo o melhor combustível para os melhores desempenhos, intervém, desde a alimentação da mãe aos primeiros alimentos do filho e, não menos importante, salvaguarda, muitas vezes, a segurança da última refeição.

A comemoração deste dia pretende ser também uma chamada de atenção. As doenças crónicas não transmissíveis continuam a ameaçar a saúde, a produtividade e a economia do nosso país e os hábitos alimentares inadequados são reconhecidos como um dos principais fatores de mortalidade e morbilidade, sendo responsáveis pelo desenvolvimento de várias doenças evitáveis, hospitalizações que seriam desnecessárias e custos associados a tratamentos de condições clínicas que representam um peso importante na despesa pública nacional.

Nas faixas etárias mais jovens, particularmente após o período da pandemia de Covid-19, assistimos a um aumento progressivo da obesidade, associado a um baixo controlo sobre os mecanismos favorecedores do seu desenvolvimento. Ausência de investimento na literacia alimentar, propagação de produtos industrializados de má qualidade nutricional, acesso a publicidade e outros meios de atração ao consumo de produtos de elevada densidade calórica, entre outros, representam fatores adversos e potenciadores de um futuro pouco animador, se nada for feito no sentido de reverter esta tendência.

A acessibilidade à alimentação saudável, dificultada pela inflação crescente dos produtos alimentares, em contraste com o baixo custo de produtos processados de baixo valor nutricional, faz com que a adesão ao padrão alimentar mediterrânico esteja cada vez mais ameaçada, sendo já, atualmente, da ordem dos 25% entre a população nacional.

O envelhecimento da população trouxe também exigências, cujas respostas não acompanharam o seu crescimento. Assistimos a uma escassez de recursos disponíveis para acolher as necessidades das pessoas mais vulneráveis, para as quais os cuidados, nomeadamente os cuidados nutricionais, carecem de conhecimento, capacidade e competências profissionais específicas.

Em paralelo, o desenvolvimento da tecnologia, o crescimento da comunicação por via digital, a influência cada vez mais forte da inteligência artificial na saúde representam desafios à profissão, que se vê obrigada a uma constante capacidade de adaptação e reavaliação de princípios éticos e deontológicos.

A profissão de nutricionista estará sempre em evolução, e isso exigirá uma atualização constante de conhecimentos, sem perder nunca a prática profissional conduzida pela mais recente evidência científica. Esse processo passa por manter um olhar atento e assertividade na análise de todos os fatores envolvidos, que se iniciam na formação académica, a que têm de ser colocados exigência e rigor, reforçando critérios nos diferentes planos, desde os modelos de ensino ao controlo imprescindível do número de licenciaturas habilitantes, sendo fundamental que, na base da reflexão, se coloquem as necessidades do mercado e a qualidade da formação.

Nos últimos dois anos de mandato da atual direção da Ordem dos Nutricionistas, materializaram-se resultados significativos, a favor de uma maior regulação profissional, contribuindo para o desejável impacto positivo na saúde da população. A maior proximidade aos órgãos governativos e parlamentares, o início de processos legislativos e a participação ativa em programas e consultas públicas relacionados com a saúde, o estreitar de relações com outros setores onde muitos nutricionistas desenvolvem as suas atividades profissionais – educação, setor social, autarquias, indústria e outras áreas da atividade privada – conhecendo cenários reais, visitando o terreno, discutindo desafios, identificando obstáculos e encontrando facilitadores não antes reconhecidos. A participação e colaboração ativas com diferentes entidades, que permitiram a concretização de medidas de melhoria para a prática profissional e consequentemente, o aumento da disponibilidade e condições de acesso a cuidados nutricionais pelos cidadãos. De entre eles, medidas como o cheque-nutricionista, aplicado numa primeira fase aos estudantes universitários e que em breve será alargada a todos os jovens nacionais, com idades entre os 15 e os 34 anos, a comparticipação pela ADSE a ambos os regimes convencionado e não convencionado, com um aumento do número de consultas abrangidas e ainda, entre tantas outras, a isenção do IVA aplicada a consultas de nutrição em ginásios, desde que a sua realização se faça por motivos clínicos.

Naturalmente que outros desafios nos esperam ainda, mas acumulamos já muito trabalho realizado, sem esquecer todo o empenho depositado nas graves lacunas resultantes da última revisão estatutária, relativas ao acesso à profissão e sobre as quais, desde o primeiro momento, foram colocados em ação todos os mecanismos possíveis para, por um lado, realizar o exigido e, em simultâneo, conseguir a sua alteração para um processo mais justo e equitativo.

Uma outra preocupação que sempre teremos prende-se com os nutricionistas que, em determinado período das suas vidas profissionais, encontrem momentos de dificuldade, oportunidades perdidas ou ainda não encontradas e que, por esse motivo, numa fase crítica, precisem da sua ordem profissional de uma forma mais particular, honrando e dignificando um princípio que sempre nos acompanhará: o de não deixar ninguém para trás.

E porque o Dia do Nutricionista é um dia de celebração, este ano, decidimos escolhê-lo para a concretização de mais um projeto: o lançamento do fundo de apoio à formação de nutricionistas, possível graças à redução de 10% do valor bruto da remuneração da bastonária e que reverterá, a partir de janeiro de 2026, integralmente, para esta bolsa que pretende vir a apoiar nutricionistas que se encontrem em situação de desemprego, a enriquecer a sua formação e melhorar competências profissionais, que lhes permitam uma mais fácil integração ou reintegração no mercado de trabalho.

 

A atividade da Ordem dos Nutricionistas nunca se esgotará, alimentada por resultados que, por si só, criarão desafios e necessidades, que motivarão o mesmo empenho e a mesma dedicação em prol da profissão e daqueles que todos os dias cuidamos. É isto que nos move e que dá sentido a tudo o que fazemos, acreditando que a Nutrição caminha para o lugar que de facto merece.

 

 

 

 

 

 

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