Portugal, no documento “O Estado da Saúde Cardiovascular na União Europeia”: Baixa Mortalidade, mas Fatores de Risco Persistem

15 de Dezembro 2025

O relatório da OCDE "O Estado da Saúde Cardiovascular na UE", tornado público hoje, analisa os padrões da doença na Europa. Portugal surge com uma mortalidade por doenças circulatórias das mais baixas do continente, um sucesso que se manteve mesmo durante a pandemia. No entanto, o país ainda enfrenta desafios significativos, como a gestão da diabetes, o consumo de álcool e a mortalidade prematura, especialmente entre os homens

O relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), intitulado “O Estado da Saúde Cardiovascular na União Europeia”, tornado público hoje, fornece uma análise aprofundada para uma avaliação comparativa dos padrões das doenças cardiovasculares (DCV) na UE e do desempenho de Portugal.

De um modo geral, Portugal sai-se bem em relação a vários indicadores importantes de mortalidade. Em 2022, a taxa de mortalidade padronizada por idade para doenças circulatórias no país era de 211 por 100.000 residentes, valor bem abaixo da média da UE de 283, colocando Portugal entre os melhores desempenhos do continente, a par de países como França e Espanha. Este cenário contrasta com o observado em vários países da Europa Oriental, onde foram registadas taxas superiores a 800, como foi o caso da Bulgária. Durante a fase principal da pandemia de COVID-19, entre 2019 e 2021, Portugal destacou-se positivamente como um dos poucos Estados-membros que continuou a reduzir a taxa de mortalidade cardiovascular, enquanto muitos outros, sobretudo no Leste da Europa, registaram um crescimento. No entanto, a análise da mortalidade prematura, definida como a que ocorre antes dos 65 anos, sugere um desafio mais específico: a taxa masculina em Portugal (29 por 100.000) é ligeiramente melhor que a média europeia (32), mas a taxa feminina (11) é superior à média feminina da UE (10), revelando que a mortalidade cardiovascular em idade precoce, particularmente entre os homens, permanece um tema relevante no contexto nacional.

No que diz respeito aos fatores de risco, Portugal apresenta um quadro misto. A prevalência anual de hipertensão autorrelatada em adultos é de 21,1%, ligeiramente abaixo da média geral da UE de 22%. Contudo, e tal como na experiência europeia, persiste uma falta de rastreio na população adulta, deixando uma grande proporção de casos por diagnosticar. Historicamente, a prevalência de diabetes em Portugal tem estado acima da média europeia, fixada em 8%, o que representa um desafio de saúde pública de longa data. Em termos de comportamentos de risco, Portugal registou um claro sucesso na redução do tabagismo, com uma taxa de consumo diário de 12,7%, comparada com os 18% da UE. Já o consumo de álcool, situado em aproximadamente 10,4 litros per capita, mantém-se num nível preocupante, em linha com a média comunitária. Existem, porém, aspetos positivos nos hábitos alimentares: o consumo diário de frutas (74%) e de vegetais (66%) é superior às médias da UE, de 61% e 60%, respetivamente. Ainda assim, a proporção de adultos com atividade física insuficiente (28%) é semelhante à média europeia, apontando para uma área que necessita de melhoria.

O desempenho na utilização e qualidade dos cuidados de saúde é notável. Portugal apresenta a menor taxa de altas hospitalares por doenças circulatórias na UE, com 710 por 100.000 habitantes em 2024, face a uma média europeia de 2.133. Este valor, que equivale a cerca de um terço da média, pode indicar um tratamento bem-sucedido nos cuidados primários, evitando internamentos desnecessários. Esta eficiência é corroborada pelo facto de Portugal ter sido um dos países da UE com as maiores reduções na hospitalização por insuficiência cardíaca congestiva entre 2013 e 2023. No ambiente de cuidados agudos, o período médio de permanência após um Enfarte Agudo do Miocárdio é de 7,1 dias, próximo da média europeia de 6,3. Para o Acidente Vascular Cerebral, a permanência média é de 15,1 dias, acima da média da UE (12,7), o que pode sugerir diferenças nos modelos de tratamento e reabilitação. Economicamente, o custo total das DCV em Portugal foi de aproximadamente 4 mil milhões de euros em 2021, uma parcela substancial das despesas nacionais de saúde, embora com custos per capita relativamente mais baixos do que a média europeia.

Em suma, o relatório da OCDE apresenta um retrato de Portugal com um perfil cardiovascular relativamente encorajador no contexto da UE, caracterizado por estimativas globais de mortalidade favoráveis e um baixo nível de utilização hospitalar. Este sucesso deve ser reforçado e utilizado para enfrentar os desafios persistentes, como a gestão da diabetes, o consumo de álcool, a promoção da atividade física e a integração dos cuidados, particularmente na fase de reabilitação. Assim, as políticas futuras devem consolidar estas conquistas, abordar as vulnerabilidades identificadas de forma direcionada e trabalhar para que os ganhos em saúde cardiovascular sejam acessíveis a todos os cidadãos, facilitando uma trajetória contínua de melhor saúde cardíaca.

O relatório da OCDE por ser consultado AQUI

NR/HN/OCDE/MMM

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights