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Num tom que alternou entre a convicção técnica e a frontalidade crítica, Maria Fontão tomou esta quarta-feira posse como presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM). A cerimónia, mais do que um mero ritual de passagem de testemunho, serviu de palco para um diagnóstico severo sobre o estado da Saúde em Portugal e para a apresentação de uma linha de ação que quer contrariar décadas de whataboutismo político. O mandato que agora se inicia, afirmou Fontão, estudante da Escola de Medicina da Universidade do Minho, será dedicado a exigir planeamento estrutural de longo prazo, sustentado em evidência e não na improvisação que, diz, caracteriza o setor.
Perante uma plateia de colegas e figuras institucionais, a nova líder estudantil não poupou nas palavras para descrever a situação do Serviço Nacional de Saúde (SNS). “Estamos perante uma crise verdadeiramente estrutural, sem precedentes na sua profundidade”, disse, com um pragmatismo que surpreendeu alguns dos presentes. O cerne do problema, na sua análise, reside numa cultura de “presentismo” que domina as políticas públicas. “Anos e anos de políticas fragmentadas, de remendos sobre remendos, criaram um sistema que hoje responde com soluções de curto alcance a desafios de uma complexidade tremenda. E quem paga a fatura são os doentes e os profissionais, presentes e futuros”, sustentou.
Um dos alvos principais da sua intervenção foi o planeamento — ou a falta dele — dos recursos humanos. “É quase um paradoxo tragicómico”, observou, com um gesto de frustração contida. “Falamos constantemente da falta de médicos, mas Portugal continua a navegar às cegas, criticamente mal posicionado nos relatórios da OCDE quanto a um mapeamento fiável e dinâmico da sua força de trabalho médica. Como se pode planear um país sem estes dados? Tomam-se decisões no vácuo, desprovidas de evidência robusta, e depois surpreendemo-nos com os desequilíbrios.” A sua voz, calma mas firme, fez-se ouvir num silênrio atento.
A ligação indissociável entre a qualidade do sistema de saúde e a formação médica foi outro pilar do seu discurso. Maria Fontão alertou para a “sobrecarga formativa crescente” que esmaga as Escolas Médicas, um problema agravado por infraestruturas por vezes decadentes, financiamento insuficiente e uma “burocracia que estrangula a inovação pedagógica”. Este cenário, defendeu, não é apenas uma questão académica. “É um desperdício obsceno do potencial dos futuros médicos e, não tenhamos dúvidas, um risco claro e direto que se materializa anos depois, nos corredores das urgências e nos consultórios, na qualidade dos cuidados que todos recebemos. Falhamos redondamente como sociedade quando não elevamos a formação médica ao estatuto de prioridade estratégica nacional.”
A mensagem final foi de compromisso, mas com contornos muito específicos. A nova Direção da ANEM, composta por António Costa (Vice-Presidente para a Representação Externa Nacional), Carlos Matos de Carvalho (Vice-Presidente para a Representação Externa Internacional), Marta Duarte (Vice-Presidente para a Gestão Interna) e Guilherme Silva (Tesoureiro), entre outros representantes, propõe-se a atuar como uma espécie de charneira. O objetivo é trabalhar na interface muitas vezes disfuncional entre os ministérios da Educação e da Saúde, fomentando uma visão que seja, nas palavras de Fontão, “integrada, multidisciplinar e, acima de tudo, persistentemente focada no horizonte”. Só assim, concluiu, se poderá esboçar um SNS “menos reactivo, mais planeado e genuinamente centrado nas pessoas”.
A sensação que ficou entre os participantes foi a de que a nova geração de médicos, ainda em formação, chega com pouco apetite para lugares-comuns e uma vontade férrea de mudar o jogo. O tempo dirá se a sua voz será ouvida além dos muros das faculdades.
PR/HN/MM



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