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O inspetor-geral da Saúde, Carlos Carapeto, apontou hoje para uma mudança de paradigma na supervisão hospitalar. Perante os deputados da Comissão Parlamentar de Saúde, defendeu que o Ministério da Saúde e outras tutelas devem passar a exigir formalmente aos conselhos de administração dos hospitais a implementação de serviços de auditoria interna dotados de meios suficientes. A sugestão surge no rescaldo de um caso concreto, aquele que levou a comissão a ouvi-lo: a produção adicional na Unidade Local de Saúde de Santa Maria, que inclui o polémico relatório sobre um médico dermatologista que auferiu mais de setecentos mil euros em três anos apenas com cirurgias adicionais.
“Provavelmente, as tutelas devem começar a exigir aos conselhos de administração que montem serviços de auditoria interna com recursos suficientes, com programas de formação, e responsabilizar os próprios conselhos de administração”, afirmou Carapeto, traçando uma linha clara de responsabilização. E acrescentou, num tom que misturava pragmatismo com frustração: “Eu não os nomeio, não os demito, mas é possível que as tutelas o façam”.
A audiência foi pedida pelo Chega, que questionou diretamente onde estaria a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) durante os anos em que tais pagamentos ocorreram no maior hospital do país. A deputada Cristina Henriques foi perentória, lançando a acusação de que “o erro foi do regulador, e não do bisturi”.
A réplica do inspetor-geral não se fez esperar e trouxe um tom de confronto raro nestas ocasiões. Carapeto rejeitou cabalmente a ideia de que a IGAS ou qualquer outro organismo de controlo externo possa ser responsabilizado por todas as falhas operacionais. “Se acha que a IGAS ou outra qualquer instituição de controlo interno é responsável por todas estas falhas, então deixamos de ter conselho de administração e eu fico a gerir os hospitais todos”, ripostou. A sua intervenção pretendeu demarcar os limites da ação inspetiva face à gestão quotidiana, que, na sua visão, continua a ser o domínio primordial dos administradores hospitalares.
O debate expôs assim uma fractura visível sobre onde recai a culpa última em falhas de controlo financeiro no Serviço Nacional de Saúde. De um lado, a perspetiva política que aponta o dedo à supervisão central. Do outro, a visão da inspeção que argumenta que a responsabilidade primeira é dos gestores no terreno, cabendo às tutelas criar os mecanismos e exigir as ferramentas que os responsabilizem de facto. O caso do dermatologista de Santa Maria, com os seus números avultados, serviu apenas de mote para uma discussão mais funda sobre governação e prestação de contas na saúde.
Referências bibliográficas:
LUSA. Tutelas devem exigir às administrações dos hospitais sistemas eficazes de auditoria interna – IGAS. 17 dez. 2025. Disponível em: [Link fornecido pela Lusa]. Acesso em: 17 dez. 2025.
Relatório da IGAS sobre a Produção Adicional na ULS Santa Maria (referido em sessão parlamentar).



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