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Os portugueses estão a adiar a prevenção. A segunda edição do Estudo Nacional de Saúde — Estado de Saúde Geral da População Portuguesa, desenvolvido pela Marktest para a Medicare, revela que as visitas regulares ao médico, essenciais para diagnósticos precoces, registaram uma quebra. Em 2025, só 14,8% da população entre os 18 e os 64 anos consultou um médico com uma frequência inferior a seis meses, uma redução face aos 19,1% do período anterior. Cerca de 30% limitam-se a uma ida anual e 22,8% apenas quando sentem necessidade. Das pessoas que não vão ao médico há mais de um ano, 27,6% referem dificuldades de acesso, como problemas de marcação ou filas, mas uma larga maioria de 66,8% alega simplesmente não sentir necessidade.
O comportamento reflete-se também na realização de exames. Quase um quinto dos inquiridos (18,2%) admite fazê-los apenas a cada dois ou três anos, e 13,4% só quando se sentem mal, confirmando uma postura mais reativa do que preventiva. Ainda assim, há um dado que surpreende: 68,4% dos portugueses realizam análises ou exames complementares pelo menos uma vez por ano, um contraste que sugere alguma descoordenação nos cuidados.
José Almeida Nunes, médico internista e autor de vários livros sobre prevenção, não esconde a preocupação. “O estudo mostra-nos que os portugueses continuam a desvalorizar a prevenção e isso acaba por resultar em diagnósticos tardios, que dificultam ou até impedem o tratamento de muitas doenças. Continuamos a cuidar quando é preciso e não antes de ser preciso, e precisamos de inverter esta realidade em Portugal”, afirma.
Curiosamente, esta tendência convive com uma perceção geral positiva do próprio estado de saúde. Os portugueses atribuem-lhe uma nota média de 75,8 numa escala de 0 a 100, valor estável face ao ano anterior. No entanto, essa avaliação esconde assimetrias. As pontuações mais baixas surgem nas faixas etárias dos 45-54 anos (73,9) e 55-64 anos (73,5), e entre residentes no Grande Porto (73,8) e Litoral Centro (74,6). O estudo detetou ainda uma ligação clara entre bem-estar emocional e saúde percecionada: quem reportou baixos níveis de stress nos últimos seis meses atribuiu uma classificação média de 82,7.
Reduzir o stress e a ansiedade surge como a principal prioridade de saúde para quase um quarto dos portugueses (23,6%). Seguem-se o aumento de energia (17,7%) e o controlo do peso (17,2%). Paralelamente, 22,1% dos inquiridos afirmam tomar suplementos alimentares de forma regular, um hábito que parece coexistir com o adiamento da medicina convencional.
No capítulo das especialidades, os números mostram alguma procura, mas também lacunas gritantes. Embora 93,3% dos portugueses tenham tido pelo menos uma consulta de especialidade em 2025, quase 60% não foram ao dentista no último ano. A Oftalmologia e a Ginecologia foram as mais procuradas a seguir à Medicina Geral, mas mesmo assim apenas por 25,2% e 15,0% das pessoas, respetivamente. A saúde mental continua claramente negligenciada: só 9,8% consultaram um psicólogo e 5,8% um psiquiatra no período em análise.
O estudo baseou-se numa amostra de 953 inquiridos, residentes em Portugal Continental e com idades entre os 18 e os 64 anos. A recolha foi feita online através de um questionário estruturado com perguntas fechadas, desenvolvido pela Medicare e revisto pela Marktest.
Para mais informações sobre o estudo, incluindo o capítulo dedicado à saúde mental, consulte https://mdcr.pt/estudo-marktest.
PR/HN/MM



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