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No Huambo, o coração agrícola de Angola, uma crise nutricional de proporções graves revela um paradoxo devastador: a fome persiste onde a terra é fértil. Desde o início do ano, 476 crianças perderam a vida devido a desnutrição na província, um número que representa um aumento alarmante de 190 óbitos face ao ano anterior.
A supervisora provincial do Programa de Nutrição, Cármen Catumbela, confirma a dimensão do drama. Os dados, avançados através da agência estatal ANGOP, mostram que 5.596 menores foram diagnosticados com subalimentação em 2025, um salto significativo comparado com os 4.526 casos de 2024. A esmagadora maioria das vítimas tinha menos de cinco anos de idade.
“Infelizmente, verificamos que muitas famílias, apesar de disporem de alimentos variados colhidos no próprio campo, como tubérculos, abóboras, soja, leguminosas, vegetais e a criação de galinhas poedeiras, não reconhecem o valor nutricional desses alimentos nem as diversas formas de confeção, que maximizam o aporte de nutrientes para as crianças”, explicou Catumbela, num relato que expõe uma fratura crítica entre a produção e o conhecimento. O desmame precoce surge, na sua análise, como a principal causa direta das mortes por desnutrição, muitas vezes agravada por patologias como a malária.
Os municípios da Caála, Huambo e Londuimbali concentram os piores indicadores. A resposta das autoridades, conforme descrita, tem passado por intensificar ações de sensibilização nas comunidades, com foco nas áreas rurais. A província conta com 13 unidades nutricionais especializadas, distribuídas por 11 dos seus 17 municípios, uma rede que parece ainda insuficiente para travar a hemorragia.
Este cenário local espelha um problema nacional de profundidade. O Inquérito de Indicadores Múltiplos e de Saúde (IIMS) 2023–2024, divulgado em maio passado pelo Instituto Nacional de Estatística, pintou um retrato preocupante: 40% das crianças angolanas com menos de cinco anos sofrem de desnutrição crónica. Apenas um terço dos bebés até aos cinco meses é amamentado de forma exclusiva, um dado que corrobora as observações feitas no Huambo e que ajuda a explicar a vulnerabilidade extrema dos mais pequenos.
O combate à morte por fome, assim, esbarra não só na escassez, mas num intricado problema de educação alimentar, acesso a cuidados de saúde e práticas culturais enraizadas, num país onde a riqueza do subsolo contrasta, de forma brutal, com a fragilidade do crescimento da sua população mais jovem.
Referências bibliográficas:
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Agência LUSA. Mais de 470 crianças morreram este ano por desnutrição na província angolana do Huambo. 17 dez. 2025.
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Agência ANGOP. Huambo: Mais de 470 crianças mortas por desnutrição em 2025. 17 dez. 2025.
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Instituto Nacional de Estatística (INE) de Angola. Inquérito de Indicadores Múltiplos e de Saúde (IIMS) 2023–2024. Maio de 2025.



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